quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Autoridade hierarquizada vs. autonomia na educação formal


Poucas instituições são tão hierarquizadoras quanto as instituições de ensino oficial – sejam elas da Educação Básica ou da Educação Superior. Independentemente das perspectivas agógicas (isto é, pedagógicas, hebegógicas, adagógicas, gerentogógicas etc) adotadas pela instituição ou pelo professor, a educação formal sempre se baseia na dependência dos estudantes para com um eixo hierárquico de autoridade – autoridade esta que pode se centrar na figura do próprio professor, dos textos escolares/acadêmicos, das tradições que modelam a sociedade, etc. O fato é que, por mais que neguemos isso, a educação institucionalizada, de modo geral, faz muito pouco para ajudar os estudantes a se tornarem realmente autônomos – e isso desde a mais tenra idade.

Lembro-me de quando comecei a ensinar numa determinada escola pública nova iorquina há cerca de uma década atrás. Discutíamos um de meus temas favoritos em História dos EUA – o chamado “Movimento pelos Direitos Civis” (o segundo, de meados do século XX) –, e três de meus alunos fizeram uma reclamação formal a meus superiores por eu os estar “forçando” a ler outras coisas e a ouvir testemunhos de visitas que trouxe à sala, enquanto deixava de lado o livro didático de história. Seu argumento era que eu estava tirando deles a oportunidade de estudarem o “currículo oficial” e se prepararem para as provas aplicadas pelo Departamento de Educação do Estado (felizmente, meus superiores discordaram da opinião daqueles alunos!).

Aquele incidente me deixou extremamente perturbado por algum tempo. Perturbei-me porque a reclamação, aparentemente, partira dos próprios alunos, e não de seus pais. Mesmo sendo apenas três deles – os considerados mais brilhantes da turma –, aquilo mostrava a compreensão que tinham do que deveríamos fazer em sala: eles seriam apenas receptores dum conhecimento acabado, e eu não passava dum transmissor. Ficava me perguntando o que tínhamos (a escola) feito com aqueles adolescentes para que rejeitassem a oportunidade de chegarem às suas próprias conclusões por meio do conhecimento de outras opiniões que podiam diferir do que o livro didático lhes oferecia. Aqueles estudantes, no final das contas, só estavam seguindo o que a escola os adestrara a fazer: sigam as regras, repitam o que “aprenderam”, e tudo estará bem!

Aquele incidente, para mim, retrata bem o efeito que a mentalidade autoritária pode ter na percepção que estudantes têm de seu valor e capacidades – e isso ocorre igualmente na Educação Superior. Frequentemente, a escola/universidade parece treinar pessoas para que sejam excelentes repetidores do que já foi dito e feito, mas incapazes de criar algo novo a partir daquilo que supostamente aprenderam. Nas humanidades, por exemplo, professores se esforçam para ensinar o que, para eles, é certo; mas não esperam de seus estudantes a capacidade de apresentarem um alto nível de discordância – isto é, uma discordância que apresente argumentos bem fundamentados, de acordo com a capacidade e experiência do estudante.

Esse problema da autoridade na educação me faz lembrar da questão do 2+2. Como gosto de dizer, 2 + 2 nem sempre é igual a 4. Esse resultado sempre dependerá da escala de medida que utilizamos (se nominal, ordinal, intervalar, ou de razão). E apenas nas escalas intervalar e de razão o resultado será 4. O motivo pelo qual pensamos que 2+2 é sempre igual a 4 é porque, na escola, a maioria de nós apenas utilizou a escala de razão.

Se nem com a matemática podemos atingir um produto que sempre será inquestionavelmente correto, o que dizer das humanidades?... É justamente por isso que prefiro que os estudantes sejam capazes de chegar a conclusões próprias (mesmo que pessoalmente não concorde com elas), construindo seus argumentos por meio da análise das evidências, comparando seus argumentos com aqueles que a instituição escolar lhes impõe, do que ensiná-los a aceitar a “tradição” sem questioná-la. Quem sabe um dia as escolas e as universidades não se tornarão templos da autonomia, espaços onde discordar construtivamente seja mais importante que marcar a opção “correta” em provas padronizadas... Sonho com esse dia!

Gibson

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pelo direito a ofender por parte de meus ofensores: ainda sobre a noite passada


Não me compreenda mal. Dificilmente você conhecerá alguém tão diplomático quanto eu, no que tange ao respeito àqueles que são, de alguma forma, diferentes de mim. Isso se justifica por minha história pessoal: várias vezes imigrante, de pele colorada, plurilinguístico, com ideias religiosas e políticas não muito populares... ser “diplomático” no que concerne às relações sociais é não apenas uma obrigação para alguém com meu background sociocultural, é uma questão de sobrevivência (já que não me encaixo facilmente em nenhuma categoria predeterminada).

Apesar da estratégia diplomática na gestão de minhas relações sociais, entretanto, defendo o direito à livre expressão de opinião, o que inclui, necessariamente, o direito a ofender a sensibilidade alheia.

Já posso até imaginar o que você está pensando! Então, é melhor esclarecer o que quero dizer por “ofender”, antes que você espalhe por aí que estou fazendo apologia à violência. Ofender, aqui, se limita a causar desconforto, provocar raiva e desgosto, irritar, contrariar, violar o pensamento e as regras alheias.

Ofender é uma das artificialidades mais “naturais” da existência social humana. Se crianças pequenas saírem às ruas nuas, ofenderão a sensibilidade da maioria dos adultos socioeconomicamente privilegiados. Se dois rapazes se beijarem em público, ofenderão a concepção que a maioria dos homens tem sobre masculinidade, em qualquer lugar do Brasil. Se, há não muito tempo atrás, uma mãe descasada trabalhasse fora, ofenderia o que a maioria dos brasileiros esperava duma “mulher respeitável”. Grandes mestres espirituais da humanidade ofenderam as sensibilidades de seus contemporâneos. Grandes literatos e artistas da modernidade ofenderam as sensibilidades artísticas de seus antecessores. Os exemplos de ofensores se multiplicam.

Ofendemos quando dizemos ou mostramos aquilo que não querem escutar ou ver. Somos ofendidos quando escutamos ou vimos aquilo que não queremos que digam ou mostrem. Ofendemos e somos ofendidos porque nenhum ser humano é igual. A tal igualdade não passa dum mito romântico que serve como antídoto à ofensa encarnada na diversidade humana. A ofensa, assim, desempenha um papel indispensável à liberdade de expressão e à afirmação da diversidade humana. Dessa forma, ela (a ofensa) não pode servir de ofendículo à liberdade de expressão.

Não temo a ofensa à minha sensibilidade. Xingar-me com termos que se refiram à minha cor, minha orientação emotivo-sexual, minha religião, meu credo político, minha profissão, minha nacionalidade, minha língua, meu background sociocultural etc, é apenas afirmar um fato – e se não um fato, uma mentira. Logo, para mim, é apenas um exercício da vida em meio à diversidade humana. Também não temo dizer o que penso. Tenho maturidade suficiente para continuar a ofender de forma diplomática!

Gibson

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Papa é pop?... A Igreja, as Ciências e os noticiários


Os noticiários anunciaram o que parecia bombástico. O líder da Igreja Católica Apostólica Romana, segundo as manchetes, endorsava as teorias da evolução e do Big Bang. Parecia que, dessa vez, o Papa tinha realmente se tornado “pop”!

Acompanhando todo o rebuliço causado pelas manchetes ao redor do mundo, tinha-se a impressão que a Igreja Romana, de uma hora para outra, abandonava a fé e rendia-se à ciência. Deus dava lugar – ao menos nas reações de fiéis e daqueles nem tão ligados assim à fé católica – aos experimentos de laboratório: era como se lêssemos uma nova versão de “Anjos e Demônios”, de Dan Brown.

Bem, nem tanto.

Na verdade, o discurso do Papa Francisco na sessão plenária da Pontifícia Academia de Ciências, em 27 de outubro, no Vaticano, foi um pronunciamento em linha com aquilo que a própria Igreja Romana tem ensinado sobre a Criação. E, para ser exato, está longe de ser um endorso daquilo que a maioria dos cientistas ensina sobre as duas teorias (a Evolução e o Big Bang). Nada que justifique o sentimento de escândalo sobre o qual alguns amigos católicos comentaram comigo esses últimos dias.

Vale a pena ler alguns trechos do pronunciamento do Papa, que se encontra aqui, em francês, ou aqui, em italiano, para observar aquilo que as manchetes deixaram de fora quando retrataram que o Papa agora é “pop” (tradução e ênfases são minhas):

[...] Quando lemos, no Gênesis, o relato da criação, corremos o risco de imaginar que Deus fosse um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim. […] Ele criou os seres e permitiu-lhes que se desenvolvessem de acordo com as leis internas que deu a cada um […] O início do mundo não é obra do caos, que deve a um outro a sua origem, mas deriva-se diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje é visto como a origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas a exige. A evolução na natureza não contradiz a noção da Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem. […]”

O resto do pronunciamento é ainda mais interessante. Não por trazer qualquer coisa nova, em termos de doutrina, mas por fazer uso duma linguagem que, aparentemente, não é muito comum à percepção da maioria daqueles que não compreendem a visão que o Catolicismo Romano tem de algumas posições científicas. Seu pronunciamento, por exemplo, fala sobre a liberdade humana – liberdade que tem uma ligação com aquelas “leis internas” que permitiriam aos seres seu desenvolvimento, segundo o Papa – e a maneira como a utilizamos para destruir a Criação, nos colocando no lugar do Criador.

Assim, faltou a todas aquelas notícias, e a todo o rebuliço nas redes sociais, tratar sobre o ponto principal do pronunciamento papal, a responsabilidade humana para com a Criação – ou natureza, se preferir. Tenho certeza que, com isso, qualquer um pode concordar!

Gibson

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Eu, um "fascista"? Sério mesmo?!


Gostaria que me apontassem onde, exatamente, utilizei “linguagem inapropriada” para me referir aos eleitores de Dilma ou do PT? Onde deslegitimei a democracia, dizendo que a “escolha da maioria foi comprada”? Onde agi como “um fascista”?... Essas acusações, que me foram feitas por mensagens por e-mail e nas redes sociais, só demonstram que: 1) meus acusadores nunca leram nada que escrevi; ou 2) não compreenderam o que escrevi.

Tenho, repetidamente, escrito sobre moderação, criticando a campanha que foi feita. Sim, critiquei certos grupos, por serem eles os mais vocíferos e por ocuparem eles as posições de poder – mas o fiz porque acredito que certas posições exigem maior responsabilidade de seus ocupantes.

Critiquei atitudes. Critiquei argumentos. Critiquei manipulações. Critiquei mitos. Critiquei messianismos. Critiquei violências. E, claro, externei minhas posições.

Defendi, apaixonadamente, a liberdade e a democracia liberal. O que você esperaria de mim, afinal de contas?

Dizer que “deslegitimo a democracia” é uma acusação ridícula. Dizer que sou um “fascista” é ainda pior. E utilizar meus argumentos para defender qualquer coisa que seja contrária ao que acredito é uma desonestidade e uma violência contra minha integridade intelectual.

Os brasileiros, como previ incontáveis vezes, reelegeram a Presidente Dilma Rousseff. E isso é a democracia como a entendo. Ver a maioria – mesmo que essa maioria fosse composta por apenas um eleitor – derrotar eleitoralmente a minoria é a democracia. E são idiotas aqueles que dizem o contrário, ao menos em nosso sistema eleitoral (com tribunais eleitorais, e observação partidária, de representantes internacionais e da imprensa). Eu acredito nas instituições democráticas de direito. Rejeito a idiotice que afirma ter havido fraudes, ou que chama à secessão.

Então, antes de fazerem essas acusações, leiam o que escrevi sobre as eleições. Não poderão pensar que alguém possa ser mais democrático que eu, em meio a toda aquela baixaria que reinou no mundo virtual. Poderão me acusar de sarcasmo e ironia contra todos, mas nunca de celebrar ou incitar nada além da liberdade democrática!

Viva a democracia!

Gibson

domingo, 26 de outubro de 2014

Aquela gente, da ex-contracultura, inimiga da liberdade


Cada vez mais, me aborreço com os intelectualóides que constituem a militância esquerdista brasileira. Essa gente “ilustrada” que domina não apenas as universidades, sindicatos e redações, mas, principalmente, os cargos eletivos e o funcionalismo público brasileiro. Essa gente que se vangloria de haver supostamente defendido, e de ainda defender, a “democracia” e a “liberdade de expressão”, juntamente com os “filhinhos de papai” das famílias privilegiadas que encontraram na onda de “terrorismo da nova esquerda” – para utilizar a classificação de David Rapoport – sua raison d'être, mas que não pensa duas vezes em apagar a democracia e a liberdade de expressão se essas se tornarem um obstáculo ao seu projeto de poder.

É interessante como essa gente – mas também a direita ignorante e atrasada – retrógrada (porque se prende a uma mentalidade da Guerra Fria), com sua máscara de cool people, consegue sempre encontrar um culpado externo para os problemas nacionais, e consegue sempre responsabilizar a imprensa pelos crimes políticos que eles (isto é, “essa gente”) mesmos cometeram. Para o credo desses profetas do Iluminismo do “eles vs. nós” a imprensa representa os “golpistas”, e os políticos esquerdistas criminosos as “vítimas” dum complô. Sua reza messianizante chega a ser irritantemente ridícula.

Eles, provavelmente, vencerão as eleições hoje. Mas, ao mesmo tempo, sairão como os grandes perdedores da mesma. Perderão porque dividiram forçosamente o país. Perderão porque se tornaram o símbolo da incoerência. Perderão porque aqueles que se esforçam para ler as entrelinhas verão sua gigantesca hipocrisia. Perderão porque abandonaram sua integridade intelectual em favor do corporativismo partidário.

Essa gente perdeu sua autoridade moral – se é que algum dia realmente a teve – quando não deixou claro que seu voto no governo do dia era um voto crítico. Em vez de, mesmo votando no PT, condenar publicamente a corrupção, as irregularidades, e “alguns” dos erros administrativos do governo petista – contra o qual disparou tantas greves nos últimos dois anos, em favor de si mesma –, escolheu o corporativismo partidário. Em vez de realizar uma defesa crítica à liberdade de imprensa, escolhe não apenas apoiar projetos que restringem tal liberdade, mas criar o ambiente para que a imprensa seja atacada nas ruas e nas sedes de editoras.

Essa é a pseudo “democracia”, e a pseudo “liberdade” – que, aparentemente, não passa de eleitoral – da elite esquerdista brasileira. A “democracia” e a “liberdade” que só importa se ela for privilegiada nas urnas (e nas contas bancárias)! A “democracia” que – escondida pela máscara do “cool people”, distribuidor de renda e defensor das “minorias” – esconde-se de seu reflexo no espelho. Essa esquerda elitista já deixou de ser a “contracultura” há muito. Só não percebe isso quem não abre os olhos!

Quanto a mim, continuo a acreditar na liberdade. Melhor um país onde ideias opostas podem se contradizer livremente que um país onde animais vestidos de militantes políticos incendeiam veículos de rede de televisão, agridem jornalistas, e tentam invadir redações. Este país já viu esse tipo de cenas antes, e sabe muito bem onde isso acaba. Esses agressores – vistos como heróis pela esquerda elitista e atiçados pela ameaça deselegante da Presidente da República (com a sua “lhes daremos uma resposta nas urnas”) – simbolizam o quão distante estamos duma cultura democrática. Eles dão, na verdade, um tiro nos pés da elite esquerdista, por expô-la como inimiga da liberdade!

Gibson

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Brevíssimos comentários sobre a “infantilidade” dos soldados partidários nas redes sociais


1) Começo por aqueles que declaram apoiar Aécio Neves:

  • Não é interessante como quando as “pesquisas” de certos institutos indicavam a vantagem de seu candidato, eles cantavam vitória, engrandecendo as previsões, mas quando apontam Dilma Rousseff como vencedora, os mesmos institutos são acusados de fraudulentos? Alguém racionalmente coerente consegue explicar isso?... Sinto vergonha por essas pessoas!

  • Uma das mais importantes bandeiras historicamente defendidas pelo PSDB, e defendida em vários momentos por Aécio Neves, tem sido a proteção à liberdade de expressão – a liberdade da imprensa, por exemplo. É ridículo e revoltante ver um chamado feito por alguns, nas redes sociais, a se boicotar artistas que apoiam a candidatura de Dilma Rousseff. Depois reclamam das piadas feitas pelos ativistas petistas sobre os supostos eleitores de Aécio!... Democracia e liberdade, para mim, implicam, dentre tantas outras coisas, na defesa do direito à opinião discordante, na defesa da liberdade daqueles que acreditam em coisas completamente diferentes das quais acredito dizerem o que querem. Alguém racionalmente coerente consegue explicar esse comportamento ridiculamente incoerente?... Novamente, sinto vergonha por essas pessoas!

2) Sobre os declarados eleitores de Dilma Rousseff:

  • Esses, por sua vez, acreditam ser a encarnação da sabedoria e conseguem utilizar argumentos tão rasos que sinto vergonha por eles – especialmente aqueles mais instruídos que se utilizam das mesmas artimanhas infantilizadas. Pense naquelas acusações contra o candidato do PSDB, especialmente as que o retratam como um “playboy filhinho de papai”. Se isso fosse suficiente para desqualificar alguém politicamente, eu usaria a acusação contra o passado da presidente-candidata como guerrilheira – que, claro, conseguiram transformar em imagem duma “lutadora pela democracia”... e eu me recuso a entrar nesse tipo de discussão com os crentes dogmáticos nesses “libertadores” nacionais (é mais fácil discutir teologia com cristãos fundamentalistas do Kentucky!). Essa gente supostamente instruída ignora, em suas argumentações nas redes sociais, os processos de construção de mitos e deixam de analisar seus próprios “discursos”. É algo triste de ver!

  • É inacreditável como pessoas supostamente tão ilustradas prosseguem com seus argumentos ignorantes sobre o “fim de direitos”!... Pelo amor da racionalidade, estudem um pouco como funcionam as leis deste país! Direitos constitucionais e leis promulgadas pelo Congresso não podem ser anuladas por um Presidente da República – a não ser que estejamos numa ditadura novamente, e ninguém pode acusar o PSDB ou seu candidato de estarem tentando estabelecer uma, seja ela dos capitalistas ou do proletariado (diferentemente dos antigos “libertadores”, que se tornaram o símbolo do establishment político de hoje)!
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Enfim, a estupidez argumentativa que esses ativistas – de todas as facções, cores, partidos, crenças, status socioeconômicos e formação educacional – têm demonstrado é vergonhosa. Pena que eles não percebem isso! [Isso para não citar a vergonhosa verborragia do ex-presidente Lula, com suas inadequadas e irresponsáveis comparações!]

Gibson

Um minuto para o sarcasmo...

A receita para "continuar mudando", segundo alguns?... Não questione! Só siga a velha e apropriadíssima receita ministerial: "Relaxa e goza"!
 
 
 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Eleições e democracia: todos perdemos alguma coisa!


Desde o ano passado tenho dito a amigos que não acredito que a Presidente Dilma Rousseff perca as eleições. Ainda acredito nisso piamente, mesmo sendo eleitor da ridícula “oposição” (como já disse aqui antes, eles não merecem essa alcunha).

Na verdade, fui surpreendido por um segundo turno – o questionamento dos eleitores e eleitoras brasileiros me surpreendeu de forma positiva. Os defensores mais combativos do governo – isto é, aqueles que se perdem num oceano de incoerências discursivas e fanatismo político (da mesma forma como os mais combativos defensores do candidato Aécio Neves ou de qualquer outro candidato político) – se ofendem quando digo que foi extremamente positivo que Dilma perdesse no primeiro turno (sim, porque ela, de fato, perdeu, independentemente de conquistar o primeiro lugar; não se trata duma questão aritmética, mas, sim, simbólica). O invencível partido messiânico deparou-se com a dúvida do populacho crente, e viu-se obrigado a disputar o assento republicano, aos “tapas”, com um "pregador" menos potente. E isso poderia ser extremamente positivo para os messiânicos (PT e os “companheiros”), para os seguidores do novo pregador (PSDB e os “amarelos”) e para seus respectivos eleitores – claro, isso se todos eles fizerem seu dever de casa.

Como ainda penso que a Presidente se reelegerá – desejo que não, mas vivo com meus pés no chão, e não na Lua! –, ela deveria aprender com a lição que recebeu dos eleitores. Ninguém é invencível, independentemente de quão popular tenha se tornado. Na verdade, ninguém é unanimemente popular – que diga minha carreira pedagógica. Não custaria muito ela repensar um pouco suas estratégias políticas em seu provável segundo mandato.

Quanto à “oposição” – ainda acho que deveríamos pensar numa alcunha melhor para eles, já que só conseguiram se opor a seus próprios eleitores até agora –, já está mais do que na hora de se decidirem ao que se opõem, afinal de contas. O consenso político social liberal brasileiro torna meio “sem pé nem cabeça” a guerra entre PT e PSDB. Na verdade, ambos os partidos são praticamente a mesma coisa, quando se leva em consideração sua agenda mais ampla. Talvez seja mais que hora de o PSDB se refundar – ou o contrário, isto é, o PT se re-refundar, tornando-se mais claramente distinto do PSDB. As diferenças entre os dois, especialmente no campo econômico, é crendice que serve apenas para ser gritado por militantes cegos em tempos de campanhas eleitorais – só não vê isso quem não quer!

Não, não sou o perfeito idiota que acredita que o PSDB, e seu candidato, represente tudo o que há de limpo e virtuoso na política brasileira – o chamado “quarto poder” da república mostra uma realidade bem diferente disso (mais um ponto em comum com os “messiânicos”... quero dizer, com o PT)!

Mas há algumas poucas diferenças entre os dois grupos. E, na verdade, são justamente essas diferenças que me fazem manter minha adesão ao PSDB e me opor ao PT e sua candidata. A diferença mais importante está nas compreensões distintas entre os dois partidos a respeito das liberdades democráticas – coisa que desde o primeiro mandato de Lula (quando eu estava bem longe daqui) tem sofrido ameaças: refiro-me à liberdade da imprensa, por exemplo, algo que mantém uma posição dogmática em minha visão de mundo. Ademais, há ainda o mais recente movimento semi-autoritário da Presidente em tomar decisões que apenas o Legislativo poderia em detrimento do próprio Legislativo (classifiquem como quiserem o Legislativo: juridicamente, eles ainda são os “representantes do povo” – posição que a Constituição não concede aos chamados “movimentos sociais”). Isso, para mim, é mais que suficiente para me opor à visão de mundo dos candidatos “messiânicos” – e os chamo assim, por se venderem como salvadores da pátria, como merecedores exclusivos do qualificativo democrático (tanto que chegam a ser ridículos).

A lição mais importante que todos deveriam aprender, entretanto, é um dos mais indispensáveis pilares democráticos: o direito à diversidade de opinião e liberdade de expressá-la em segurança. Estas campanhas só deixaram claro o quão equidistante está o imaginário brasileiro da cultura democrática à qual se refere o professor Larry Diamond, por exemplo. Quando desrespeitamos a opinião oposta, desqualificando-a simplesmente por se opor à nossa, com a violência que tem marcado estas eleições, desfavorecemos qualquer ambiente de liberdade e de democracia. E eu me aborreço com o quão amplamente isso se fez entre os brasileiros em 2014.

Outra coisa com a qual me aborreço é a hipocrisia dos defensores partidários. A distância entre o que disseram e fizeram há pouco mais de um ano atrás e o que dizem e fazem hoje é uma desgraça sobre sua própria memória. Se, por um lado, atacam a corrupção, por outro, todos parecem abertamente acariciá-la, se isso lhes for conveniente: um exemplo disso são as manifestações de apoio a candidatos em edifícios públicos (a Dilma em instituições federais; ao candidato a governador de Pernambuco, agora eleito, em instituições estaduais; a Aécio em instituições estaduais em Minas Gerais) – tais manifestações, além de ilegais, são inéticas, logo, corruptas; logo, contradizem o discurso de condenação da corrupção.

Bem, talvez seja pedir demais que os grupinhos militantes pensem em ética e moralidade na política; mas, deveriam!

Assim, de certa forma, todos ganhamos e todos perdemos nessas eleições. Ganhamos a oportunidade de repensar nossa “natureza” enquanto “animais políticos”, enquanto nossos diferentes pseudo-representantes “ganham” ou “perdem” as eleições. Perdemos porque (1) eles não representam plataformas tão diferentes assim; (2) não agem de forma diferente; e (3) ajudam seus eleitores a sabotarem o espírito de cooperação democrática e livre, quando os laçam uns contra os outros em nome do poder que almejam. E isso é uma sombra maldita por sobre a democracia que deveríamos, eleitores dos dois lados, rejeitar. E os dois candidatos contribuíram malditamente com isso!

Gibson

sábado, 18 de outubro de 2014

Clareza semântica, integridade intelectual e moralidade política: é isso que quero na campanha eleitoral


Sempre tive muita antipatia ao uso indiscriminado de certos termos para falar sobre a vida social. Usamos alguns deles de forma tão vaga que, mesmo inconscientemente, subtraímos de alguns seu sentido histórico – ignorando não apenas os conceitos tradicionais a eles atrelados, como a carga psicológica que levam.

Exemplos disso se encontram no uso feito de termos como democracia e ditadura, e seus correlatos. Se prestarem atenção às campanhas políticas, por exemplo, perceberão que quando um determinado grupo social deseja ou aprova algo, aquilo é classificado como democrático; e quando não deseja ou desaprova algo, aquilo é chamado de ditatorial. O uso indiscriminado desses termos, além de ignorar teorias filosóficas/sociais/políticas bem estabelecidas, viola a carga psicológica que esses termos ganharam, por exemplo, como consequência da experiência histórica brasileira com ditaduras e no esforço pelo estabelecimento da democracia, levado a cabo por cidadãs e cidadãos que abraçaram o processo político e rejeitaram à violência e à “selvageria”.

Hoje, quando antigos grupos “guerrilheiros” dizem ter pego em armas em “defesa da democracia”, deve-se questioná-los se sua “democracia” era a mesma defendida por aqueles outros que encontraram meios políticos para se opor ao último regime ditatorial que dominou o Brasil; se era a mesma “democracia” defendida por inúmeros jornalistas que utilizaram a escrita como força de libertação e (re)democratização. Hoje, obviamente, a verdade daqueles grupos se tornou tão dominante que ninguém vê nada de errado com sua apropriação do termo “democracia”. O problema é que quando eles são classificados de democráticos, violamos a memória daquelas inúmeras pessoas que nunca pegaram em armas, nunca sequestraram ninguém, nunca mataram, mas mesmo assim sofreram nas mãos de torturadores. Essa, para mim, é razão suficiente para fazer uma opção por definições claras!

Quando grupinhos selvagens incendeiam as ruas do país, afirmando estarem “lutando por democracia”, me pergunto se sua “democracia” era a mesma que fez com que minha tia-avó – que só escrevia para um jornal e ministrava aulas numa universidade – sofresse nas mãos de torturadores. Tenho certeza que não. Suas visões do que é democracia não poderiam ser mais distintas uma da outra. Essa, para mim, é razão suficiente para deixar claro o que quero dizer quando uso certos termos!

Quando certos grupos tentam classificar nosso governo – por mais que eu pessoalmente não tenha nenhuma simpatia por ele – como ditatorial, estão pisoteando a memória daqueles que experienciaram um regime ditatorial no Brasil, ou daqueles que encontraram um lar no Brasil após fugirem dum regime ditatorial alhures. Essa é razão mais que suficiente para escolher a clareza semântica/nocional.

Outro termo usado indiscriminadamente nesse ambiente de guerra eleitoral no qual vivemos, hoje, é fascismo, e seus correlatos. Qualquer pessoa que classifique qualquer candidato ou partido político brasileiro como fascista não tem ideia do que esse termo significou para aqueles seres humanos que experienciaram um regime fascista. Não consigo encontrar nenhuma definição – sejam a de Payne, Linz, Eatwell, Ramos, Griffin, Nolte etc – que justifique o uso desse termo para fazer referência a nenhum dos dois atuais candidatos à Presidência da República. Essa é razão mais que suficiente para ser semanticamente claro em campanhas eleitorais ou em artigos jornalísticos.

Fazer política partidária e jornalismo, num regime democrático – que é o que o Brasil experiencia em sua história atual –, exige integridade intelectual, clareza e honestidade para com o público. Essas são características que, mesmo que pareçam utópicas, deveriam integrar qualquer “mudança” que nossa sociedade possa esperar politicamente. É uma pena que ainda não tenhamos nos dado conta disso. E é uma vergonha que os dois candidatos à Presidência – um deles aquela que já é Presidente – não demonstrem preocupação nenhuma com esse aspecto moral da política.

Gibson

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O debate na Band e o medo como instrumentalização na campanha política

É prática comum – e não apenas no Brasil – a tentativa de manipulação dos eleitores por meio do discurso do medo. De um lado, os governistas de todos os níveis do Executivo, para manterem-se no poder, fazem uso de assombrosas previsões ameaçadoras na esperança de impedir seus opositores de vencerem as eleições; de outro lado, as oposições recorrem à mesma tática retórica a fim de conseguir estremecer a confiança dos eleitores nas promessas daqueles que já estão no poder. Ambos os lados fazem um desserviço ao eleitor.

Um pouco dessa atitude, na verdade, está prontamente visível nas campanhas “não oficiais” desenvolvidas pelos ativistas das chamadas redes sociais dos mais variados posicionamentos políticos (das esquerdas, das direitas, dos centros, e dos sem coordenadas espaciais): para alguns desses, “a direita” quer subtrair direitos sociais alcançados pelos cidadãos; para outros desses, “a esquerda” quer implantar uma ditadura no Brasil.

Obviamente, não preciso dizer que nenhum desses grupos apresenta “provas” ou “evidências concretas” que substanciem suas acusações. Sua campanha, assim, baseia-se no medo que, por sua vez, assenta-se sobre a suposta desinformação do eleitor.

Sim, é verdade que – a depender de sua compreensão política individual – há sempre uma expectativa justificada de que aquilo que apreciamos seja mudado para pior por aqueles que defendem outras posições políticas. Mas qualquer eleitor digno do nome deve desenvolver a capacidade de duvidar das obviedades, de criticar suas próprias certezas e, especialmente, das afirmativas de candidatos a posições eletivas. Eu, como eleitor, duvido de todos eles; voto em candidatos, mas faço questão de acompanhar o que dizem e fazem. Faço questão de ser, enfim, o pior pesadelo que podem ter – já que criticarei absolutamente todos que julgue estarem errados, especialmente aqueles nos quais votei. E os dois candidatos à Presidência da República que disputam o segundo turno das eleições têm, até agora, desrespeitado a seus eleitores quando instrumentalizam o medo em suas campanhas e quando utilizam o horário eleitoral e os debates para trocarem agressões, em vez de discutirem propostas e ideias.

Os que se instrumentalizam com o medo atentam contra um dos mais importantes pilares da democracia representativa: a discussão de ideias e propostas, e o direito de o eleitor decidir-se com base nelas. E porque os candidatos não acreditam na capacidade intelectual do eleitor de lidar com proposições políticas, preferindo tornar os palcos de debates em cenas de pancadaria do “Big Brother” ou de “A Fazenda”, fazem uso do medo como linguagem instrumental. Se isso em si é uma afronta imperdoável à dignidade do eleitor, quando quem o faz já é Presidente da República isso é ainda pior – torna-se uma agressão direta à própria cidadania, e um desrespeito à posição institucional que ocupa!

Se você que lê minhas palavras for um “boxeador” partidário, talvez tenha se irritado. Bem, isso é problema seu, independentemente de qual seja sua preferência eleitoral. Eu não luto por candidatos políticos. Na verdade, não luto, trabalho. Trabalho por mim mesmo, por minhas convicções, por minha confiança nas instituições de Direito, pela democracia. Quem tem de trabalhar por mim são eles – aqueles que são eleitos. E quando uma Presidente e um candidato desrespeitam-me como um cidadão e como eleitor, torna-se muito difícil confiar em suas promessas.

Gibson

terça-feira, 14 de outubro de 2014

De onde saiu o Bolsa Família mesmo?

A resposta está no artigo 1º da Lei 10.836/2004.

 
"Art. 1o Fica criado, no âmbito da Presidência da República, o Programa Bolsa Família, destinado às ações de transferência de renda com condicionalidades.

Parágrafo único. O Programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação - Bolsa Escola, instituído pela Lei nº 10.219, de 11 de abril de 2001, do Programa Nacional de Acesso à Alimentação - PNAA, criado pela Lei n o 10.689, de 13 de junho de 2003, do Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Saúde - Bolsa Alimentação, instituído pela Medida Provisória n o 2.206-1, de 6 de setembro de 2001, do Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002, e do Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto nº 3.877, de 24 de julho de 2001."



A tal "crise" internacional da Presidente da República

A Presidente Dilma Rousseff continua a justificar os resultados negativos da economia brasileira como resultado da "crise" internacional. No link abaixo, 164 professores universitários de Economia dão uma resposta a essa justificativa da presidente-candidata:


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Terceiras breves reflexões sobre o 2º turno nas eleições


Apesar de geralmente não declarar meu voto, qualquer um que me conheça sabe em quem votei para Presidente no primeiro turno das eleições, e em quem continuarei a votar no segundo turno. Apesar de não ser o que chamo de “eleitor tiete” (o eleitor que declara, explícita ou implicitamente, que seu candidato é um tipo de “salvador da Pátria” e que abre mão da criticidade em favor duma bajulação personalística), minhas convicções político-partidárias sempre foram muito claras.

Como um defensor e praticante convicto da democracia liberal, apesar de defender minhas convicções políticas, estou comprometido com o direito de as pessoas expressarem suas opiniões num espírito de equidade e civilidade. Assim, se você é eleitor deste ou daquele candidato ou partido, faço questão de respeitar sua dignidade pessoal – tanto como ser humano, quanto como cidadão e eleitor – e não agredi-lo por pensar e fazer escolhas políticas diferentes daquelas que constituem minhas opções pessoais. Não compro as disputas de políticos, então não romperei amizades (reais ou virtuais) simplesmente por você acreditar numa ideologia à qual me oponho ou votar em candidato no qual não voto.

Penso serem ridículas as atitudes demonstradas por tantos nessas últimas semanas de atacarem seus colegas, amigos, vizinhos, familiares em suposto favor daqueles que querem continuar no poder ou daqueles que querem assumi-lo. Eles e elas frequentam seus clubes sociais e tomam seus drinques juntos, enquanto os reles mortais se estapeiam em nome deles. Esse tipo de atitude por parte dos eleitores é de uma infantilidade para mim incompreensível.

Além da infantilidade dessas disputas – que pode dizer algo sobre a (i)maturidade emocional e intelectual de alguns –, há o aspecto referente ao espírito de civilidade democrática que preza pela tolerância à diferença de opiniões, que é violado por essas disputas ativistas, tanto na vida real quanto na virtual. Isso, obviamente, não quer dizer que não possamos expor nossas opiniões contraditórias e/ou mesmo atacar as convicções alheias – significa, sim, que deveríamos nos lembrar que quando utilizamos certos adjetivos contra aqueles que pensam diferentemente de nós, que até ontem eram nossos amigos, nos expomos como inimigos da democracia e da liberdade.

Se alguém ainda tem qualquer dúvida, explicito que minha escolha é pela saída do atual governo petista – em consonância com minhas convicções ideológicas e partidárias. A retórica da divisão utilizada pelas campanhas do PT, desde sempre, entre “eles” e “nós”; as investidas contra as instituições de direito em nome do favoritismo eleitoreiro; suas associações escusas, enquanto vende-se como porta-voz da virtude política, dentre tantas outras coisas, tudo isso torna o establishment petista (não a pessoa da Presidente Dilma Rousseff, a propósito) indigno de continuar na direção do governo. Esta tem sido e é minha convicção.

Muitos compram o discurso da campanha do governo. O “nunca antes na história do Brasil” imprimiu-se sobre a mente de muitos, graças ao personalismo lulista e agora, mesmo que a frase tenha mudado, é repetido nas bocas dos dilmistas. A justificativa utilizada mesmo por muitas pessoas supostamente instruídas, quando falam sobre o suposto “risco” representado por Aécio Neves para “os mais pobres”, por exemplo, só explicita sua não compreensão das e não confiança nas instituições democráticas, porque o que estão dizendo, em outras palavras, é que a Presidência é um trono agora destinado exclusivamente aos filhos do PT, à dinastia lulista – e todos os que não sejam fruto dessa linhagem são ilegítimos.

O argumento, na verdade, deveria ser o de que se os governos petistas (três até agora – quatro anos a mais que os dois únicos mandatos do PSDB, é bom lembrar) fizeram algo realmente relevante e bom para “os mais pobres”, e aqui é bom que eu reconheça que o fizeram, então esses eleitores não deveriam temer o fim de ações de bem-estar social. Isso porque teriam estatizado essas ações, e não apenas as “governamentado”.

Eu, como sabem, não compro aquele discurso. Não compro o discurso do “eu fiz mais por você, então você não pode me abandonar agora” – já que o que isso quer dizer é que 1) eles fizeram um favor a você, e não simplesmente cumpriram sua obrigação; 2) você recebeu uma esmola, e não seu direito; 3) você não pode usar seu direito de questionar e remover, etc. Essa declaração é feita todas as vezes que alguém, se referindo ao FIES, por exemplo, diz algo como “quando um pobre conseguiria fazer faculdade antes?”. Essa pessoa – alguém real com quem conversei recentemente –, obviamente, ignora e é levada a acreditar pela campanha do governo que aquele programa fosse uma criação da atual Presidente. Não sabia ela que o antigo “Crédito Educativo”, que deu origem ao programa, fora criado ainda na década de 1970, e que o FIES em si foi criado em 1999 durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O mais interessante nisso tudo é que aquela pessoa era docente universitária de História – e se ela comprou o discurso salvacionista, o que esperar de eleitores mais jovens que cresceram na era do consenso petista?

O foco central de minhas convicções democráticas é o de alternância. Uma democracia representativa – e o papel de seus participantes (eleitores e eleitos) – só amadurece quando há alternância, quando nenhum grupo político se enxerga ou é enxergado como detentor absoluto e/ou exclusivo dos anseios democráticos do “povo”, quando há a oportunidade de pelo menos dois atores partidários distintos se alternarem no poder – esperançosamente mais que apenas dois. Quando não há essa alternância, cria-se o tipo de distorção na percepção que muitos brasileiros hoje têm do processo democrático – mesmo pessoas formalmente instruídas. E isso, em minha opinião, é um desfavor à democracia representativa, o tipo de democracia estabelecido pela Constituição brasileira.

Como um liberal democrata, voto por convicção ideológica; como um crente no processo democrático representativo e na responsabilidade cidadã, voto pela alternância democrática. Voto pela saída do PT. As férias farão bem a eles, para que se repensem e se reencontrem com suas antigas declaradas virtudes.

Se você acredita em outra coisa, não o xingarei, não o desmerecerei, não violarei sua dignidade pessoal, nem porei um fim à nossa amizade. Por favor, não seja descortês, como não fui com você. Permita-me usar minha inteligência da forma que julgo mais condizente com minhas convicções pessoais, da mesma forma como você faz com a sua.

Gibson

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Segundas breves reflexões sobre o 2º turno nas eleições


Não sou funcionário de políticos, não trabalho para partidos políticos, não acredito em Papai Noel, nem acredito numa realidade dividida entre heróis e bandidos... Logo, politicagem personalística (pró ou anti) não funciona para mim. Estou pouco me lixando para os adjetivos que usam para qualificar aos dois grupos ou candidatos à Presidência; logo, se você é um “dilmista”, continuarei a ser seu amigo, e se for um “aecista”, ao menos devemos concordar em algumas de nossas críticas ao status quo.

Essa politicagem personalística estava bem presente nas campanhas no primeiro turno – sejam as partidárias, sejam aquelas realizadas pelos militantes partidários; as campanhas pareciam estar sobrecarregadas desse tipo de retórica. Além disso, a incoerência politiqueira é tão incrível que chega a ser intolerável.

Lembrei-me, hoje, de algumas das pérolas das campanhas dos “governistas” nestas eleições, e eis um rascunho de brevíssimos comentários a algumas delas:


1) “...O PSDB QUEBROU O PAÍS TRÊS VEZES!”… OU: “...ACABARÃO COM OS PROGRAMAS SOCIAIS!”... OU: “FHC FEZ COM QUE O BRASIL SE SUBMETESSE AO FMI!”... OU AINDA: A LADAINHA DA PRIVATIZAÇÃO

Essa é incrível. Deve entrar na história das argumentações politiqueiras.

O sucesso econômico desfrutado na última década pelo Brasil tem suas raízes no esforço feito pelo Estado brasileiro, no decorrer da administração do PSDB, para se alcançar o equilíbrio fiscal, cambial e monetário. Notem que escrevo “tem suas raízes”, com o que quero reconhecer que houve avanços, mas esses não emergiram ex nihilo, não são invenção dos governos de Lula ou de Dilma, como se vende na campanha à reeleição da Presidente – tiveram uma origem nas ações às quais o PT se opôs lá na década de 1990, mas que foram, felizmente, mantidas quando Lula assumiu o poder (ou seja, é um mérito do esforço de todos eles combinados, FHC, Lula e Dilma).

É muito fácil, agora, apontar o Plano Real como sendo o responsável por prejuízos econômicos e sociais – com a brilhante acusação eleitoreira da presidente de que o PSDB “quebrou o país três vezes” –, ao mesmo tempo em que se esquece que foi aquele plano que conseguiu resolver, naquele contexto, um dos maiores desafios para o crescimento econômico e social do Brasil de então: inflação de mais de 700% anuais até 1994, e a precariedade institucional que, além dos resquícios das políticas anteriores, impediam a modernização da economia nacional. Apesar das limitações, a administração de FHC teve razoável sucesso ao atravessar as crises econômicas internacionais que acometeram a economia brasileira ao longo de seu governo – é uma questão de analisar os dados, considerando os contextos políticos e econômicos nacionais e internacionais de então, em vez de se prender a disputas eleitorais.

Durante a crise econômica de 1998, o Brasil recorreu ao FMI para conseguir um empréstimo – o que alcançou graças à pressão dos Estados Unidos para que o órgão o concedesse. A instabilidade da situação internacional exigia esse empréstimo. O México e a Rússia haviam quebrado, e ninguém queria que o mesmo ocorresse com o Brasil. O mesmo ocorreu em 2002, após pesquisas eleitorais indicarem uma possível vitória de Lula nas eleições presidenciais e o mercado indicar um clima de insegurança com as expectativas dum governo do PT; para evitar um ataque especulativo durante as eleições, o governo de FHC negociou um acordo de 30 bilhões de dólares com o FMI – FHC ficou infame por assinar um acordo de empréstimo, quando Lula foi quem colheu as benesses políticas que vieram em consequência do mesmo! O governo que deixava foi corajoso o suficiente para evitar uma catástrofe econômica – que teria sido causada pela impressão que se tinha internacionalmente do recém-eleito –, negociando um acordo com a aprovação do eleito, e hoje é acusado como se aquele acordo tivesse prejudicado o país!... Parece-me uma piada de muito mau gosto!

Quando os militantes governistas falam nos gastos sociais nos governos de Fernando Henrique Cardoso, como se esses tivessem sido inexistentes, não levam em consideração o status das contas públicas, e não apresentam dados comparativos – em seu universo mental, repetem o mantra de que apenas o PT tenha tido gastos sociais. Então, deixem-me apresentar informações aqui. Os dados abaixo correspondem à porcentagem do PIB relativo ao Gasto Social Federal, entre 1980 e 2010 (dados do SIAFI e IPEA):

1980 – 9,3%
1985 – 10,3%
1990 – 11,8%
1994 – 11,8%
1995 – 12,2%
1996 – 12,3%
1997 – 11,5%
1998 – 12,3%
1997 – 11,5%
1998 – 12,3%
1999 – 12,2%
2000 – 12,6%
2001 – 13,0%
2002 – 12,9%
2003 – 13,0%
2004 – 13,2%
2005 – 13,8%
2006 – 13,8%
2007 – 14,2%
2008 – 14,2%
2009 – 15,5%
2010 – 15,5%

Há, obviamente, um investimento comparativamente maior nas despesas sociais do Governo Federal com gastos sociais durante os dois primeiros mandatos do PT – nos dados acima se estendendo até o fim do segundo mandato do governo de Lula. Entretanto, é sempre bom lembrar que os números não falam por si sós – eles precisam ser analisados com base num contexto mais amplo dos cenários políticos e econômicos nacional e internacional. Considerando esses cenários, veremos que há um certo nível de estabilidade do volume de investimentos sociais dos governos brasileiros, em comparação ao PIB, ao longo das três últimas décadas. Logo, as desqualificações eleitoreiras não fazem sentido para ninguém que tenha a capacidade de analisar dados comparativamente e contextualizá-los historicamente.

Quanto às privatizações, não é sequer necessário comentar: pode realmente o PT acusar qualquer outro partido, ou pode a Presidente fazê-lo, de ser "privatizador"?... Quem o faz deve ter vivido muito longe do Brasil e não ter lido nenhuma notícia sobre a economia do país na última década!


2) O PSDB E O FUNCIONALISMO PÚBLICO

Chega a ser ridículo um militante partidário atacar qualquer partido ou governo com base em suas relações com os funcionários públicos (não apenas, mas especialmente os federais). As últimas e recorrentes greves de diferentes grupos de servidores federais ocorreram sob o governo de qual partido mesmo?... Ah, é, o PT, e o governo de Dilma Rousseff!... Logo, aperfeiçoem seus argumentos. Utilizar chavões vazios como “arrocho salarial” não diz absolutamente nada numa argumentação política qualitativa.

Como não acredito em conto de fadas, ao menos para mim, nunca haverá – nesse formato de funcionalismo público levado a cabo no Brasil – harmonia entre um governo democraticamente eleito, e orçamentariamente responsável, e os diferentes grupos de funcionários públicos. Assim, todos os candidatos a cargos de qualquer nível do Poder Executivo deveriam – se quisessem manter certa coerência entre sua retórica de campanha e a vida real – abandonar esse tipo de acusação contra seus adversários (sejam do PT, do PSDB, do PSB, do PMDB, do DEM ou de qualquer outro partido político).


3) AÉCIO NEVES E A COCAÍNA

Lembro-me agora daquelas acusações infundadas contra o candidato Aécio Neves, feitas nas redes sociais e repetidas por tantas pessoas de alguns de meus círculos sociais, de que ele seria usuário de drogas ilícitas.

A incoerência retórica de algumas daquelas pessoas está no fato de muitas delas vociferarem um apoio à descriminalização do uso e/ou comércio dessas mesmas drogas, ao mesmo tempo em que dizem que alguém não devesse ser eleito por supostamente ser ou haver sido usuário de cocaína.

A propósito, sou um daqueles que apesar de acreditar no direito à vida privada do cidadão, também acredita em responsabilidade ética e moralidade pública; logo, não votaria em ninguém que reconheça – ou sobre quem se prove – estar cometendo ilicitudes enquanto ocupe cargos eletivos, ou quando é candidato. Assim, não votaria num(a) candidato(a) que se declarasse usuário de drogas ilícitas, já que isso diria muito sobre seu compromisso ou não com o cumprimento da lei – e isso, caros colegas, é coerente, já que não sou um defensor do “libera tudo agora!”.

Mas, como todo eleitor inteligente já deve ter notado, aquelas acusações eram politicagem eleitoreira! O que o candidato reconheceu, como fez a candidata Luciana Genro, foi ter experimentado maconha quando tinha 18 anos, e nunca mais. Logo, a acusação infundada – já que sem provas – é irrelevante e deveria estar fora das campanhas, isso para não citar a incoerência entre o que defendem seus divulgadores e seus argumentos (chega a ser vexatório).


4) “NÃO FIZERAM EM OITO ANOS, COMO FARÃO AGORA?”

Isso é o que dizem sobre o PSDB no governo, mas há uma falha com esse argumento. Afinal de contas, se o PT – que está no poder há 12 anos – não fez algumas das coisas que hoje promete em sua campanha, como posso acreditar que o farão?


Então, por favor, aperfeiçoem seus argumentos quando vierem me dizer ou escrever sobre o “risco” que os brasileiros correm se elegerem Aécio Neves à Presidência! Em vez de lendas, tragam ideias que sejam relevantes para alguém como eu!

Gibson

domingo, 5 de outubro de 2014

Primeiras breves reflexões sobre o 2º turno nas eleições


Fico felicíssimo por haver um segundo turno. Acredito ser isso, no contexto brasileiro, uma grande oportunidade para o eleitor refletir mais profundamente sobre sua escolha para o Executivo. Diminui o número de candidatos e, esperançosamente, eles são obrigados a convencer o eleitor com base em ideias e propostas e não (apenas) em ataques pessoais de nível pré-escolar.

Uma outra coisa muito positiva é servir de “tapa na cara” para quem pensa ser invencível. É bom que aqueles que buscam a reeleição se sintam ameaçados pela desconfiança do eleitor. É bom que sintam os altares ou tronos sobre os quais alguns julgam assentar-se estremecerem. Isso é maravilhoso para a DEMOCRACIA.

Então, que venha o Segundo Turno para Presidente da República, e que o debate político qualitativo seja exigido pelos eleitores!

Gibson

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A "América" e os "americanos"... uma resposta a um crítico


Fui duramente criticado por um leitor por utilizar o adjetivo “americano” para fazer uma referência aos Estados Unidos da América. Meu crítico pensava que estava me dando uma lição de história com seus argumentos anti-imperialistas, mas ele esqueceu-se de alguns dados importantes. E, por isso, resolvi dividir com ele algumas considerações que sempre trago à tona com meus alunos.

Nos países ao sul dos Estados Unidos da América, é comum haver uma resistência e antipatia à forma como os cidadãos daquele país se identificam e se referem ao seu lar. Essa resistência e antipatia, possivelmente, têm uma origem no contexto das relações que se desenvolveram ao longo da história entre os Estados Unidos da América e os demais Estados-nação do continente. Assim, você identifica a utilização do adjetivo “americano” para se referir a alguém/algo natural dos E.U.A. como uma manifestação da suposta prepotência imperialista “norte-americana”.

Particularmente, enxergo a utilização do substantivo “América” e do adjetivo “americano” para fazer referência aos Estados Unidos da América de outra forma. Levo em consideração não apenas a história dos termos em si, como também a própria língua inglesa. Como não partilho das perspectivas políticas que acredito serem a principal fonte daquela resistência e antipatia ao uso dos termos em questão pelos nacionais de outros Estados-nação ao sul do Rio Grande, escolho utilizar aqueles termos para me referir aos naturais dos, ou relativos aos, Estados Unidos da América. Isso porque, em minha perspectiva, não há sentido histórico ou linguístico (quando se consideram a história americana e a língua inglesa, isto é) para que utilizemos hoje expressões como estadunidense ou norte-americano, por exemplo.

Pare por um segundo e analise o termo “estadunidense”. Ele se refere, claramente, ao nome “Estados Unidos”; mas “Estados Unidos” não constitui o nome da terra ou da nação, mas sim da entidade política (o Estado). É algo semelhante ao nome “República Federativa do Brasil”. Ninguém no Brasil falaria de si mesmo como sendo “republicano-federalista” (ou seja lá que adjetivo se construísse a partir do nome do Estado brasileiro), mas sim como brasileiro(a). Ninguém na República Argentina, até onde sei, identifica sua nacionalidade como sendo “republicana”, mas sim como argentina. Semelhantemente, os fundadores da república americana escolheram chamar suas terras de América, e a entidade política que criaram (uma federação de Estados independentes) de Estados Unidos da América – isto é, entidades políticas que se encontravam na América e que se reuniram para formar uma entidade maior –, e a partir do nome que deram às suas terras, faz pleno sentido identificarem-se como americanos.

Se fizermos a mesma análise, tentando deixar de lado o preconceito político, entenderemos que o adjetivo norte-americano também não é muito útil. Afinal de contas, os americanos (os naturais dos EUA) não são os únicos norte-americanos. Obviamente, utilizo aqui o mesmo raciocínio utilizado por aqueles que condenam o adjetivo “americano”, afirmando que os naturais dos E.U.A. não são os únicos americanos; a limitação de seu argumento, entretanto, está em não se levar em consideração que os E.U.A. é o único país no continente que se chama explicitamente de “América” – o que torna o adjetivo “americano” linguisticamente apropriado. E se fizéssemos um uso semelhante quanto ao Brasil ou à Argentina, veríamos que uma auto-identificação como sul-americano não ajuda muito para fazer referência a uma identidade nacional.

Por essas razões, utilizo e continuarei a utilizar, em minha escrita e fala (em português, já que em inglês não há outra alternativa, de qualquer jeito), o adjetivo americano(a), e não norte-americano(a) ou estadunidense, para me referir a pessoas ou coisas relativas aos Estados Unidos da América – independentemente do uso feito no Brasil. Você, entretanto, tem a liberdade de utilizar o adjetivo que lhe pareça mais conveniente.

Assim, antes de lançar tantos adjetivos deselegantes em minha direção, você talvez deva desenvolver um senso de criticidade inclusive para com seus próprios preconceitos políticos – que parecem impedir seu raciocínio!

Um grande abraço de seu objeto de crítica!

OBS.: Aproveitando o tema, quem tiver interesse em aprender mais sobre HISTÓRIA AMERICANA, recomeço a oferecer o curso online gratuito "Reading America: An Introduction to U.S. History in Portuguese" [Lendo a América: Uma Introdução à História dos E.U.A. em Português] em novembro, no Eliademy. Quem quiser maiores informações, é só me contactar.


Gibson

domingo, 14 de setembro de 2014

A hibernação da inteligência dos militantes da “religião civil”


A coisa mais triste a respeito do período eleitoral – e, em minha experiência, isso vale tanto para o Brasil quanto para os EUA – é que a inteligência de militantes partidários parece entrar em hibernação. Frequentemente, parece haver uma explicitação de incoerências entre o que geralmente afirmam, em outros momentos, e aquilo ou aqueles que tão vorazmente defendem em sua tola militância partidária.

Bem, como não devo favores políticos a absolutamente ninguém, me permitam ousar dizer o que penso sobre essa hibernação da inteligência militante. Utilizarei o padrão da língua portuguesa e, todos os pronomes, substantivos, adjetivos etc que aparecerem em sua forma masculina também se referem ao feminino.

Para iniciar, é importante deixar claro que, com a idade, background sociocultural, experiência de vida e formação que tenho, não acredito em heróis. Nenhum homem ou mulher que ocupe uma posição política é um herói ou salvador da pátria. No máximo, admiro uma certa posição política num dado contexto. Nem mesmo os autores filosóficos que me influenciaram, por exemplo, são ídolos intelectuais que reverenciaria de forma absoluta. Para mim, todos os “heróis” políticos têm pés de barro.

Isso já é suficiente para me separar desses ativistas que posam como intelligentsia política, afirmando sua religião civil, com seus dogmas políticos sacrossantos, seus rituais revolucionários e suas divindades partidárias (ao mesmo tempo em que, geralmente, condenam as pessoas que professam uma fé religiosa como se essas fossem seres irracionais e ignorantes).

Esses militantes partidários são os que idolatram certos personagens políticos nacionais ou d'alhures, colocando-os sobre altares, onde devem estar intocáveis. Esses ídolos políticos passam, então, por um processo de sacralização ainda em vida, e seus dizeres – independentemente de quão absurdos sejam – passam por um rápido processo de canonização e se tornam dogma da “religião civil” que esses ativistas partidários constroem.

A esta altura, já imagino que tenham dado uma face ao meu comentário (é... se você for um partidário do establishment do dia no Brasil, deve ter se ofendido e imaginado que me refiro a Lula da Silva). Bem, se a carapuça serviu, então que seja! Mas não me refiro apenas a ele, nem apenas ao Brasil. Abraham Lincoln, Getúlio Vargas, John F. Kennedy, Fidel Castro, Che Guevara, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Hugo Chávez, George W. Bush, Barack Obama, Dilma Rousseff, Eduardo Campos, Marina da Silva, Aécio Neves... escolha você mesmo um nome! Todos eles podem estar – e, de facto, estão – sobre o altar de algum devoto partidário.

Bem, se você já se irritou com minha metáfora religiosa, dê-me um desconto. Não consigo subtrair minha formação teológica da linguagem que escolho utilizar para falar daquilo que vejo como uma “religião civil”. Como um teólogo liberal, e como um ministro unitarista, frequentemente critico o dogmatismo cego. Então, você não pode esperar que não criticaria o dogmatismo cego da “religião civil” também.

Voltando ao fanatismo – não, me desculpem, à “hibernação da inteligência” – dos militantes partidários, lembrem-se do que tem ocorrido nos últimos doze anos no Brasil e nos últimos oito anos em Pernambuco.

O Brasil tem sido governado pelo PT desde 2003. O executivo federal tem contado com uma esmagadora aliança no Congresso Nacional, e nos governos e legislaturas estaduais. Os vassalos dos partidos de base dominam as estruturas da máquina pública, dos sindicatos e dos chamados movimentos sociais. Ou seja, o PT e seus aliados reinam quase que absoluta e inquestionavelmente. Mesmo que minha afirmação lhes irrite, isso é um fato.

Agora, pode realmente alguém, em sã consciência, acusar a inútil, ineficiente e patética “oposição” – na verdade, eles nem são dignos dessa alcunha – como os “culpados” pelo que não funciona no país? Que tipo de cegueira estúpida encobre a visão desses militantes partidários?

Só para que se recordem, quem governava o Brasil durante as últimas greves dos diferentes grupos de servidores federais? Eram os “conservadores”, a “direita”, os “fundamentalistas”? Bem, se você também vive no Brasil, terá de concordar comigo e reconhecer que era Dilma Rousseff, com o PT e seus aliados. E se você vive em Pernambuco, terá de reconhecer que nas últimas greves de diferentes grupos de servidores estaduais, era Eduardo Campos (ou seu substituto de última hora), com o PSB (que, na prática, era ele mesmo) e seus aliados.

A crítica, aliás, se estende aos governadores daquilo que por aqui chamam equivocadamente de “direita”, isto é o PSDB, e seus aliados do DEM; assim como de todos os outros partidos nacionais. Se me referi diretamente ao PT e ao PSB, é pelo simples fato de o Governo Federal estar com o PT há três mandatos, e o estadual em Pernambuco estar com o PSB há dois mandatos.

Como os militantes de todos esses grupos podem, honestamente, falar em “mudança”, em “será melhor” etc, quando esses partidos e aliados, e seus candidatos, estão no poder há tanto tempo e, na prática, sem oposição? Quem pode ser tão estúpido a ponto de não perceber que há algo errado na narrativa histórica feita por esses grupos de militantes partidários (de absolutamente todos os partidos)?

Recentemente, li comentários de treze pessoas afirmando que eu estava distorcendo a história quando sarcasticamente postei em minha conta do Twitter: “Em 2013, incendeiam o país protestando contra a corrupção; em 2014, fazem propaganda gratuita p/o Governo protestado... Quem entende isso?

Obviamente, não podia escrever mais que “contra a corrupção” em minha postagem, já que os limites do Twitter não permitiriam mais palavras. Os que se doeram com meu comentário eram militantes da “religião civil” do establishment. Eu, obviamente, havia ofendido a sacralidade de seus ídolos e de seus dogmas. Sua inteligência, aparentemente, fora atingida pelo estado de hibernação do período eleitoral.

Quando, em 2013, o populacho saiu às ruas para “protestar” (e destruir, e queimar, e roubar, e violar direitos, e desobedecer às leis, e desrespeitar a Constituição Federal, etc, etc, etc), contra quem protestavam? Contra alguma entidade imaginária ou contra quem detinha o poder? E quem detinha o poder? Se queriam mais “educação e saúde” e não a “Copa”, contra quem protestavam? Se queriam mais ações governamentais em nome dum “bem-estar social”, contra quem protestavam?... Bem, os militantes que me enviaram mensagens pensam que protestavam contra todos menos os seus respectivos partidos políticos! Não é brilhante isso?!... Para essas pessoas, eu sou ou um ignorante ou um manipulador à serviço “da direita”!... Bravo para eles! Não imaginam o quão envergonhado me sinto por sua letargia cognitiva!

Esses militantes da “religião civil” brasileira são os mesmos que exigem a punição dos envolvidos com a violência da ditadura anuladora das liberdades individuais, como a expressão de opinião, ao mesmo tempo em que exigem a criação de leis que limitariam a liberdade da imprensa que ousa opinar (independentemente do valor de sua opinião) contra as divindades partidárias. Curioso, não?!... Talvez, a melhor classificação para a atitude desses serviçais do Poder seja: HIPOCRISIA. Pura e simples!

O que essa gente não parece compreender é que os governantes e legisladores não nos fazem favores quando realizam obras de qualquer natureza – nas áreas de educação, saúde, segurança, cobertura social etc. Eles simplesmente cumprem a lei – isto é, quando o fazem. Assim, um partido político e um governante não são patriarcas da moralidade; eles são servidores dos cidadãos. Mesmo que, em meu caso, não se tenha votado em quem governa, a partir do momento em que ele ou ela sobe ao poder, estará lá para servir-me enquanto cidadão – e não apenas aos adeptos de sua “religião civil”. Logo, não fazem nada mais além de cumprir com sua obrigação constitucional.

É uma pena que esses militantes – isto é, aqueles que servem entusiasticamente como serviçais gratuitos da máquina eleitoral – não se deem conta das bobagens que gritam por aí, e do papel de tolos que fazem em nome de gente sedenta pelo poder!

Gibson da Costa

domingo, 7 de setembro de 2014

Da docência das humanidades, especialmente da História, na Educação Básica


(Publicado originalmente aqui.)


Sempre senti um desconforto em definir minha atuação num campo intelectual específico. Isso porque as humanidades – isto é, aquele grande campo no qual se encontram as áreas mais específicas de minhas formações e interesses intelectuais (a Teologia, a História, a Filosofia, a Ciência Política, a Economia, as Artes e os Estudos Linguísticos) – estão tão entrelaçadas a ponto de tornar a construção de muros isoladores entre suas diferentes áreas uma impossibilidade, ao menos em minha compreensão pessoal.

Esse entrelaçamento cria o ambiente para minha renúncia ao mito duma formação e atuação isolacionista daqueles que pesquisam e ensinam as chamadas “ciências humanas/sociais”; o tipo de atitude isolacionista proposto pelos ativistas de grupos corporativistas, que anseiam por uma forma de privilégio profissional deveras mítico para um adepto da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade como eu.

Pensando sobre o ensino de História na escola, não posso deixar de afirmar a necessidade que o/a professor/a tem de estar familiarizado/a com conceitos indispensáveis à construção duma compreensão social. Conceitos esses advindos de muitas áreas distintas, como a Sociologia, a Antropologia, a Economia, a Filosofia etc, e que são utilizados em nossos estudos históricos e, consequentemente, em nosso ensino da história escolar – aquela imposição absurda, que a sociedade faz aos alunos da Educação Básica, de informações históricas, em aulas com pouca duração, daquilo que os professores demoraram pelo menos quatro anos para aprender superficialmente de forma mais concentrada. Ensinar História a estudantes da Educação Básica pode tornar-se, assim, um desafio enorme para qualquer professor/a que leve seu trabalho à sério.

Assim, vejo a necessidade de os professores/as de História, mas não apenas de História, serem incentivados a ampliarem sua própria compreensão teórica para que possam levar seus alunos a ampliarem seu repertório de questionamentos históricos. Isso significa, dentre tantas outras coisas, que, por exemplo, devamos evitar a aceitação de respostas óbvias e a imposição de visões políticas unilaterais em aula – tornando nossa posição de privilégio em sala uma espécie de palanque político, como é tão comum em aulas de História (ou em todas as aulas escolares).

Dessa forma, ensinar sobre o capitalismo, por exemplo, só deixará de ser uma apologia à nossa própria visão de mundo (seja ela pró ou anticapitalista), se nós mesmos nos esforçarmos para compreender a historicidade do capitalismo – e o mesmo é válido no que tange ao socialismo.

Por isso, vejo meu papel pedagógico como aquele de um provocador ou mediador na experiência de aprendizado do/a estudante. Antes de ser aquele que possui as respostas para todas as suas questões, prefiro ser aquele que os provocará a ponto de buscarem suas próprias respostas – mesmo que essas impliquem conclusões às quais eu mesmo não chegaria. Isso, obviamente, exige um grande esforço de aprendizagem do lado do próprio docente.

Não poderíamos servir como mediadores no aprendizado das causas que levaram à emergência da al-Qa'ida contra os Estados Unidos, por exemplo, se nós mesmos não estivermos familiarizados com o pensamento do jihadismo islâmico e suas diferenças para com o pensamento islâmico ortodoxo. Do contrário, correríamos o risco de classificar ou aceitar a identificação por parte dos alunos do Islã com o terrorismo, como se todo muçulmano fosse necessariamente um terrorista em potencial (e mesmo a utilização dos termos “terrorismo” e “terrorista” dependeriam duma compreensão teórica para um uso informado).

O mesmo pode ocorrer quando tratamos sobre temas que estão mais imediatamente entrelaçados com nossas experiências pessoais, envolvendo nossa compreensões morais. Um exemplo recorrente no Brasil é a forma como muitos professores, e alguns materiais didáticos, por exemplo, lidam com a história mais recente do país. O exemplo mais imediato que me vem à mente é o refrão repetido de acusação ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como uma forma de agente do “neoliberalismo”, enquanto o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva é frequentemente pintado como uma espécie de herói nacional. Já me perguntei o que um/a professor/a responderia se lhe pedisse uma definição teórica do “neoliberalismo – a maioria dos que já ouvi oferecendo tal definição, o identificaram (o “neoliberalismo”, isto é) com a privatização, e só. Outros professores conseguem impor a seus alunos uma visão forçosamente classista da história, como se apenas essa compreensão fosse suficiente para lidar com a complexidade do universo social.

Essa simplificação exagerada da realidade, que, em minha opinião, é motivada pela antiquada e paternalista visão do/a professor/a como um ator/atriz social messiânico/a, só pode ser vencida pela ampliação dos horizontes intelectuais daquele/a que tem a sala de aula como seu campo de atuação profissional. Um/a professor/a de História deve ser capaz de questionar a realidade social de forma intelectualmente mais sofisticada do que aquele grupo de amigos sem a mesma formação acadêmica na mesa de bar. Ele/a deve ser capaz de questionar suas próprias convicções, de avaliar seu uso semântico, de encontrar paralelos no universo sociocultural e etário de seus alunos, para que, assim, possa servir de mediador. Essa, ao menos, tem sido minha experiência, mesmo que meus colegas nem sempre concordem comigo.

Manter nosso repertório teórico atualizado é um desafio por nossa carga conteudística ser elevada. Enquanto um/a professor/a do Ensino Superior frequentemente ocupa-se de campos muito específicos duma grande disciplina acadêmica, seu/sua colega da Educação Básica é responsável em lidar com o todo da disciplina que leciona exigido para aquele nível educacional. Assim, um professor de História na Educação Básica que lecione em todas as séries do Ensino Fundamental II ou do Ensino Médio, lida com a história das origens dos seres humanos até o hoje, nos níveis global, nacional, regional e local, e sobre questões referentes a grupos étnicos específicos, por exemplo – independentemente de sua formação e de seus interesses intelectuais. Isso exige um esforço intelectual provavelmente inimaginável para a maioria dos/as professores/as de História do Ensino Superior. Mas como esse foi um desafio que supostamente aceitamos no decorrer de nossa formação, temos de fazer o melhor que pudermos para vencê-lo; e esse melhor exige, no mundo perfeito, um esforço para nos mantermos atualizados no que tange tanto à nossa área disciplinar quanto às questões pedagógicas propriamente ditas.

Essa exigência que é feita dos/as professores/as da Educação Básica deveria, aliás, ser suficiente para eliminar o preconceito tido por muitos dos/as docentes do Ensino Superior contra o papel do/a docente da Educação Básica. Em minha experiência, ser um bom professor generalista, o que poderia se esperar dos/as professores/as da escola, exige um esforço muito maior (em todos os campos possíveis da vida pessoal) do que aquele que é normalmente exigido dum/a professor/a que atua numa área especializada do Ensino Superior. Os desafios que enfrentamos incluem não apenas um conhecimento ao menos panorâmico de todos os conteúdos tratados no nível escolar que ensinamos (se é que isso é realmente possível), como também um instrumental necessário para ajudar nossos alunos a se engajarem com assuntos que geralmente lhes parecem distantes e desinteressantes.

É por isso que não posso definir meu campo de atuação pedagógica ou intelectual numa área específica das humanidades. Para mim, elas estão inerentemente entrelaçadas, devendo viver num jardim de convivência comum. Para ensinar História, por exemplo, preciso de conceitos advindos de outras áreas, preciso estar atento ao mundo de hoje, ao mesmo tempo em que devo ser cuidadoso para não cair nas armadilhas do anacronismo. Isso não é nem um pouco fácil, mas é o que torna as chamadas “Ciências Humanas e Suas Tecnologias” fascinante para mim.

Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

Gibson da Costa Em 2013, incendiaram as ruas, em protestos contra a corrupção e o descaso. Em 2014, votaram absolut...