quinta-feira, 27 de março de 2014

PLETORAS HISTORIOGRÁFICAS: MÚLTIPLAS ABORDAGENS TEÓRICAS E METODOLÓGICAS AO PASSADO.



Gibson da Costa

RESUMO: A história do desenvolvimento da História enquanto disciplina acadêmica demonstra a complexidade envolvida na construção de conceitos e práticas que se pretendam científicas nas empreitadas acadêmicas. Essa complexidade, evidenciada pela pletora de teorias e métodos utilizados pela comunidade de historiadores, representa um desafio à autocompreensão dos profissionais atuantes nos campos historiográficos; representa, ademais, um desafio à compreensão do fazer científico nos campos históricos. Este texto busca apresentar os variados sentidos do fazer histórico ao longo dos dois últimos séculos da história de seu desenvolvimento.

Palavras-chave: Teoria da História; Historiografia; História da Historiografia.

1. Introdução
A história está tão conectada com, e é tão essencial para, todos os tipos de conhecimento, que o texto mais superficial a respeito de qualquer assunto é minimamente tolerável, a não ser que nele se introduza ou se faça alusão a algum tipo de fato histórico.
(Joseph Priestley[1])

            No acima transcrito trecho duma obra escrita no século XVIII pelo polímata inglês Joseph Priestley, na qual ele pretende oferecer aos seus jovens alunos os rudimentos do conhecimento histórico e político, o autor faz referência à História como um tipo de conhecimento popularmente visto, na época em que escrevia, como essencial a qualquer pretensão de competência intelectual. Para ele, e na percepção de muitos no século XVIII, o conhecimento sobre o passado representaria uma espécie de demonstração de civilidade e instrução. Duma certa forma, talvez possamos supor que não nos distanciemos tanto assim dessa percepção do papel da História no mundo atual: o conhecimento dos – ou, pelo menos, a familiaridade com – eventos do passado continua a ser visto como essencial à vida cidadã e à pretensão de alguma forma de literacia cultural/intelectual, pelo menos no que diz respeito às expectativas escolares – mas também no que diz respeito às expectativas culturais duma parcela da sociedade urbana como um todo, a julgar pelos temas de populares programas de televisão, assim como livros incluídos nas listagens dos mais vendidos, e nos temas de filmes frequentemente lançados nos cinemas, que tratam o passado como um objeto apreciável e compreensível.
            A própria palavra “história” é um termo, no mínimo, ambíguo, ao menos em seu uso quotidiano. Em português, assim como em algumas outras línguas, o termo possui pelo menos dois sentidos básicos: primeiro, refere-se ao próprio passado histórico, à matéria sobre a qual os historiadores escrevem; segundo, pode se referir ao estudo daquele passado, à prática e escritos dos historiadores. Assim, muitas vezes, uma distinção gráfica é feita no uso do termo em textos escritos, à qual recorreremos ao longo deste. Assim, quando utilizarmos o termo “História” – grafado com inicial maiúscula –, referir-nos-emos ao estudo do passado feito pelos historiadores (assim como a seus escritos baseados nesse estudo), também chamado de historiografia; o uso com inicial minúscula, por outro lado, referir-se-á ao primeiro sentido, ou seja, ao próprio passado[2]. Pensar sobre esses dois sentidos dados ao termo é indispensável para todo aquele que se engaja no estudo histórico acadêmico: primeiro, porque devemos ter uma ideia sobre o que é aquilo que nos serve de objeto de estudo (a história enquanto passado); e, segundo, porque devemos ser capazes de explicar o que fazemos com aquele objeto de estudo quando nos engajamos com ele (a História enquanto prática dos historiadores). Aqui, refletiremos acerca daqueles questionamentos propostos – i.e., o que é a História e o que fazemos quando nos engajamos em seu estudo? –, recorrendo às respostas oferecidas ao longo do desenvolvimento da História enquanto disciplina acadêmica.
            Refletir sobre sentidos que possamos atribuir ao passado é refletir sobre considerações conceituais que perpassam a(s) Teoria(s) da História – além, obviamente, das abordagens metodológicas que dão forma às práticas profissionais dos historiadores –; é, no que concerne à historiografia, adentrar um domínio que se supõe científico, ao menos em sua tentativa de sistematização, para construir – permita-nos a metáfora – um mapa da realidade observada. Assim, a História, enquanto empreitada “científica” – certamente não aquela necessariamente objetiva, quantificante, e laboratorial, mas comportante, assim mesmo, de “núcleos de cientificidade”[3] – é construída por sobre alicerces de pressupostos conceituais e práticas metodológicas que modelam-na aos rigorosos padrões acadêmicos exigidos daquelas disciplinas cujos praticantes anseiam vê-las como científicas.
            Ao mesmo tempo em que todo esse suposto rigor teórico e metodológico molda-a disciplinarmente, estando, entretanto, enraizada naquele grupo das chamadas “humanidades” ou “ciências humanas”, a História submete-se também à subjetividade valorativa das ideias que enquadram nossa visão de mundo – subjetividade essa que hoje podemos confessar estar presente, em maior ou menor grau, em todas as chamadas “ciências”. Essa subjetividade é, em parte, responsável por todas as variedades de compreensões teóricas e abordagens metodológicas presentes na historiografia, e o que, em nossa opinião, torna possível a continuação da atividade historiográfica – já que se todos os que se engajam nessa atividade pensassem o mesmo e chegassem sempre às mesmas conclusões (o que se poderia esperar de uma empreitada objetiva, mas que não ocorre nem mesmo nas disciplinas mais quantificantes, como comenta Reis sobre a Física[4]), não haveria necessidade de se continuar a pesquisar sobre os mesmos temas e assim, eventualmente, a necessidade pela História cessaria.
            É dessas considerações conceituais e práticas metodológicas que emergem aquilo que José D'Assunção Barros distingue como Paradigmas[5] Historiográficos e Escolas Históricas. Para o autor, o termo Paradigma Historiográfico refere-se às “grandes linhas dentro da historiografia […] que apresentam uma forma específica de conceber e lidar com a História”, como o Positivismo, o Historicismo e o Materialismo Histórico; Escola Histórica, por sua vez, refere-se a “grandes conjuntos coerentes de historiadores, unidos por um programa de ação em comum e por mecanismos apropriados de difusão para seus trabalhos, como revistas e instituições”, como a Escola Metódica, a Escola dos Annales, a Escola Marxista Inglesa etc[6]. Assim, as diferentes reflexões acerca do sentido da História e a própria forma de fazer/escrever a História organizam-se em diferentes tradições historiográficas ou agrupamentos de historiadores, pautados conjuntamente por teorias e metodologias afins.


2. A História “como realmente foi”

            Por séculos, as concepções ocidentais de História conciliaram, em diferentes graus, várias compreensões sobra a mesma: a História foi vista como um ramo da literatura ou poesia; como um instrumental político, no sentido de glorificar heróis e condenar vilões; como uma contribuição à memória coletiva, por meio da manutenção de anais e crônicas; e como uma fonte de lições morais para o presente e o futuro. Dessas compreensões emergiram debates emocionados e discordâncias violentas concernentes àquelas questões relativas à substância e ao método da História. Mesmo quando a noção de História como uma investigação científica do passado se difundiu, os historiadores continuaram a discordar sobre o caráter e as implicações de suas investigações. Enquanto alguns procuravam “leis” do desenvolvimento humano, outros simplesmente tentavam reconstruir aspectos próprios do passado per se. Alguns pensavam, concordando com Marx, que em vez de simplesmente investigar o mundo, o objetivo deveria ser mudá-lo; outros, como Ranke, evitavam qualquer papel explicitamente político na tentativa de reconstruir o passado “como realmente foi”. E, mais recentemente, alguns teóricos da História levantaram dúvidas fundamentais sobre se o passado pode ser conhecido, ou se não estamos de volta à visão da História simplesmente como literatura, política, ou mito.
            A partir do século XVIII, emergiram versões “modernas” e “científicas” de narrativas e explorações do passado, especialmente nos escritos dos pensadores iluministas. O jurista francês Montesquieu (1689-1755), por exemplo, com O espírito das leis, buscava identificar e explicar, em termos seculares, regularidades e variações em tipos de governo. William Blackstone (1723-1780), jurista inglês, com os Comentários sobre as leis da Inglaterra, escreveu o primeiro tratado sistemático e analítico do sistema legal inglês, fazendo uso, para tal, de uma bem reputada pesquisa histórica das decisões das cortes inglesas até sua época. Hegel (1770-1831), por sua vez, ecoava em sua obra resquícios da tradição religiosa cristã ocidental, com as noções da queda original e do esforço progressivo rumo à redenção  presentes em sua noção de estágios históricos em termos da realização do Espírito do Mundo. Muitas das grandes obras históricas do século XVIII e XIX continuaram a ser marcadas por uma combinação de engajamento moral e esforço literário; muitas análises históricas foram também incentivadas por um sério engajamento político com os temas-chave de sua época – a exemplo das obras individuais de Edmund Burke (c.1729-1797), Joseph Priestley (1733-1804), e Alexis de Tocqueville (1805-1859), quando trataram das Revoluções Americana e Francesa. Essas características da História – i.e., seu engajamento com o passado a partir das perspectivas do presente – continuaram a ser centrais mesmo com o seu estabelecimento como uma disciplina acadêmica no século XIX (e, não custa reconhecer aqui, ainda continuam, já que quando nos deparamos com o que foi produzido no passado, enxergamos esse produto com nossas lentes do presente – das quais não podemos nos desfazer por inteiro).
            Com a nova fé nas concepções positivistas de ciência, a História se estabeleceu como um campo universitário, digno de estudo ao lado de outras disciplinas acadêmicas. Um personagem indispensável nessa cientificação da História, e um dos pais fundadores do que veio a ser chamado de Historicismo, foi o historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886). Enquanto o substancial corpus de suas obras históricas desapareceram na poeira da distância temporal, ele é extraordinariamente bem conhecido por uma única sentença: “Atribuiu-se à História o ofício de julgar o passado para ensinar ao mundo contemporâneo em favor do uso dos anos futuros; a tentativa presente não é subserviente a tais altos ofícios; apenas busca mostrar como realmente foi[7]”. O sentido do comentário é, claramente, o de enfatizar a História como um modesto esforço de se preocupar apenas com o resgate das evidências e com a reconstrução do passado, independentemente de quaisquer julgamentos morais ou usos potenciais para os objetivos contemporâneos.


3. Marx e o “fim” da história humana

            Entretanto, a noção rankeana não era universalmente compartilhada, mesmo em seu próprio ambiente cultural alemão. Na mesma época em que Ranke promovia a noção de investigar o passado “como realmente foi”, seu contemporâneo mais radical, Karl Marx (1818-1883), começou – em sua própria compreensão do que fazia – a desnudar as noções burguesas de História (particularmente as narrativas políticas heroicas) como ideologias disfarçadas. Tentando libertar-se da herança hegeliana do Idealismo alemão, Marx tentou mostrar que a História era o registro, não da realização do Espírito do Mundo, mas dos esforços coletivos de pessoas reais. De fato, Marx apenas substituiu uma metanarrativa por outra. No lugar do Espírito do Mundo veio a história progressiva da humanidade para produzir e reproduzir, entrando no processo em distintos grupos de relações sociais (ou relações de classe), desenvolvendo constantemente os meios de produção, e progredindo por meio de lutas revolucionárias a estágios mais elevados de emancipação humana. Sem entrarmos aqui em detalhes sobre o massivo corpus da obra de Marx ou os contínuos debates sobre sua interpretação, faz-se necessário destacar ao menos três características gerais da herança marxista.
            Primeiro, apesar de sua reação contrária à visão idealista de História defendida por Hegel, Marx foi um herdeiro da grande narrativa metafísica em termos do progresso histórico rumo ao objetivo final, o “fim” da história humana: em seu caso, esse deveria ser uma sociedade comunista de abundância. Houve muitas reações subsequentes contrárias a isso, com frequência simplesmente substituindo uma grande narrativa por outra, como a emergência do liberalismo, da democracia, do “Progresso” – ou, no caso do pós-modernismo, por uma narrativa de caos e indeterminação.
            Segundo, Marx escreveu no contexto positivista do século XIX da fé na ciência, e da crença na possibilidade de descobrir “leis” sociais e econômicas condicionantes da história. Novamente, enquanto reagindo contra qualquer noção geral de “leis” históricas ou sociais, houve variações subsequentes no tocante ao tema, questionando se é possível desenvolver generalizações históricas válidas ou oferecer explicações causais que não dão muito peso às percepções ou ideais dos atores históricos.
            Terceiro, Marx estava ciente (ao menos em seus primeiros escritos) da importância da liberdade humana e do poder das pessoas para afetarem e mudarem as circunstâncias: sua noção de práxis revolucionária, em contraste à mera compreensão filosófica do mundo, efetivamente desafiava qualquer noção de observar o passado pelo passado. Isso também provou ser uma fonte extraordinariamente fértil para futuras noções de interpretação histórica como intervenções no presente – e foi massivamente oposto por aqueles vindos da tradição rankeana da História como um estudo baseado em documentos do passado em seus próprios termos e apenas por si.
            Apesar de seus insights surpreendentemente prescientes, de suas teorias detalhadas e do escopo ambicioso de sua obra, Marx aparentemente falhou em integrar essas três características. É importante notar, entretanto, que seu esforço em construir uma alternativa “científica”, supostamente revelando “leis” escondidas do desenvolvimento social moveu a atenção de sobre os motivos e ações de indivíduos para estruturas econômicas e sociais e atores coletivos (classes). Essa fé na possibilidade de “análise científica”, além das ideias e valores expressos de participantes históricos individuais, aliada a uma noção ativista de intervenção política para efetivar mudanças futuras, inaugurou, no século XX, tradições historiográficas radicalmente diferentes daquelas que emanavam de outras correntes acadêmicas do século XIX.
            Assim, ainda no início de seu estabelecimento como um campo acadêmico, a História possuía uma imensa diversidade interna de objetos de pesquisa, e noções de métodos e objetivos. Na forma do Marxismo-Leninismo, a abordagem de Marx foi institucionalizada nas academias históricas dos Estados comunistas do século XX, e também se tornou, nas cores do arco-íris dos neomarxismos do Ocidente, muito influente nos círculos esquerdistas de muitos Estados capitalistas, mesmo que com dramáticas variações e muito faccionalismo interno. Num nível filosófico, a famosa crítica de Karl Popper (1902-1994) à “miséria do historicismo” (com “historicismo” aqui sendo um substantivo com sentido diferente daquele termo usado na história da historiografia) acusava o Marxismo – assim como a psicanálise freudiana – de ser um sistema de crença essencialmente não falseável a par com a religião[8]. Entretanto, uma combinação de Marx e Freud influenciou, por exemplo, os escritos da chamada Escola da Teoria Crítica de Frankfurt. As críticas à herança iluminista, e às noções mais ativistas de práxis, inicialmente desenvolvidas por Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1906-1969), influenciaram as análises históricas e sociais de fins do século XX nos Estados Unidos e na Alemanha, mais notavelmente nas obras de Jürgen Habermas (1929-) e Herbert Marcuse (1898-1979). Formas bem distintas de Marxismo, que quase apagaram inteiramente a liberdade humana de sua história, encontravam-se entre os estruturalistas associados a Louis Althusser (1918-1990) na França, que, por sua vez, entraram em marcantes conflitos com historiadores marxistas humanísticos, como o historiador britânico E. P. Thompson. Assim, muitos assumiram, de diferentes formas, o ambíguo legado de Marx.


4. Para além de Marx

            No Ocidente, uma ampla variedade de tradições teóricas não-marxistas se proliferaram. As contínuas tentativas de Max Weber (1864-1920), por exemplo, de desenvolver uma abordagem metodologicamente consciente dos problemas da história mundial resultaram num conjunto de conceitos e teses altamente sofisticados. Weber tentou combinar a busca sistemática de generalizações históricas válidas com a ênfase na necessidade duma compreensão interpretativa dos sentidos internos do comportamento humano, tanto no sentido de motivos individuais para a ação quanto no sentido mais amplo de sistemas coletivos de crença que não poderiam ser reduzidos, como na obra de Marx, a uma base material[9]. Weber também tentou separar a análise acadêmica das prescrições políticas com suas noções de neutralidade de valor e objetividade[10].
            No decurso do século XX, a expansão da educação superior na Europa e nos Estados Unidos incentivou uma ampla variedade de abordagens teóricas competitivas, separando os herdeiros, de diferentes formas, das variadas tradições teóricas, com frequentes conflitos em termos de seus pressupostos. A contínua diversificação de alternativas nos campos teórico e metodológico da História[11] levou a conflitos cada vez maiores entre tradições historiográficas. Historiadores políticos e da diplomacia internacional eram desafiados por outros que preferiam atentar à História do Trabalho, à História Social ou à História da Mulher; esses, por sua vez, eram desafiados por aqueles que preferiam retornar às questões da mentalidade ou cultura. As histórias nacionais eram vistas de novas formas por queles que vinham da perspectiva pós-colonialista. E as diferenças entre áreas de interesse foram reforçadas por debates teóricos e metodológicos. Aqueles que escreviam histórias narrativas tradicionais fundamentados em conceitos como motivos, ações ou contingências individuais, combinações de circunstâncias, e cadeias de eventos eram desafiados por aqueles que propunham uma abordagem mais analítica da História em termos de fatores e generalizações, frequentemente baseando-se em hipóteses explicitamente formuladas e sistematicamente avaliadas por meio de rigorosas análises comparativas ou quantitativas. E grandes divergências continuaram entre os historiadores sobre até que ponto a pesquisa e a escrita históricas poderiam ou deveriam ser “imparciais”.
            Assim, no decorrer dos últimos dois séculos, uma ampla variedade de abordagens à História – e à história – se desenvolveram no meio acadêmico, especialmente, da Europa e dos Estados Unidos. Além daquelas que citamos anteriormente, devemos ainda enumerar aquelas teorias “hermenêuticas” que apontam para a importância da compreensão interpretativa do comportamento guiado por regras (em contraste com aquelas noções de explicação causal), argumentando que haveria diferenças fundamentais entre interpretações de ações humanas e explicações de fenômenos naturais. Aqueles influenciados pela antropologia adentraram a problemática do sentido em busca de “descrições densas”, apropriando-se da noção desenvolvida por Clifford Geertz[12]. Estruturalistas não-marxistas das mais distintas variedades se engajaram na exploração de “estruturas profundas”, da economia ou da mente humana, por exemplo; enquanto outros olhavam para estruturas em termos de relações sociais visíveis, facetas de organizações políticas e arranjos institucionais. Outros renunciaram os meandros teóricos – como se isso fosse possível –, buscando os fatos empíricos do passado, explicando-o por meio de narrativas cronológicas simples do que tinham descoberto. Finalmente, já nas últimas décadas do século XX, chega a influência das visões pós-modernas, que, de sua parte, afirmam que em princípio é impossível acessar o significado por trás do significante, já que o primeiro seria um mero produto do discurso; que a realidade nunca pode ser perfeitamente representada[13].


5. Considerações Finais

            A pletora de perspectivas históricas, que continuam a se diversificar, e sua ligação com pontos de vista políticos conflitantes, apresenta um desafio a qualquer noção da História como busca pela verdade – até porque a própria noção de verdade é amplamente questionada nas atuais discussões epistemológicas. Alguns alegremente reconheceram e celebraram o caráter inevitavelmente situado do conhecimento histórico[14], incluindo, por exemplo, os desafios às narrativas históricas tradicionais construídos por aqueles historiadores vindos de perspectivas feministas ou pós-coloniais. Outros se apegaram à noção de verdade histórica como não relacionada necessariamente a pontos de vista políticos contemporâneos. Alguns implicitamente aceitaram que interpretações concorrentes poderiam, em princípio, ser combinadas numa síntese mais ampla, como novas perspectivas servem para alargar velhos horizontes; outros tomaram o mutável mosaico como um indicativo do caráter caleidoscópico das imagens contemporâneas do passado, que em si mesmo nunca pode ser conhecido. E, ultimamente, a História parece consistir na imposição de interpretações, na construção de significados: atribuindo e investindo aos restos do passado sentidos no presente, e não reconstruindo-o “como realmente foi”.
            Essa ampla diversidade teórica e metodológica consiste num desafio que abarca não apenas a História, como também todas as demais áreas de conhecimento acadêmico que se pretendam “científicas”. A visão dessa diversidade e de seu desenvolvimento ao longo dos últimos dois séculos é essencial para que possamos compreender o que faz o historiador quando faz a História, o que é a História, afinal de contas. Ela mostra-nos que a História é uma empreitada inacabada e sempre mutante, que pode ser sempre enriquecida por novas perspectivas e novas práticas. Essa mutabilidade torna quase impossível uma definição objetiva do que seja a História, mas oferece-nos a chave para compreender mais sobre quem somos como “homens que sabem que sabem”.


Referências Bibliográficas

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[1]     Tradução do original: History is so connected with, and essential to, all kinds of knowledge, that the most superficial essay upon any subject whatever, is hardly tolerable, unless some kind of historical facts be introduced, or alluded to in it.” PRIESTLEY, Joseph. Lectures on History, and General Policy. Dublin: P. Byrne, 1788. p. 2.
[2]     JENKINS, Keith. A História Repensada. Tradução Mario Vilela. São Paulo: Contexto, 2009. p.25.
[3]     REIS, José Carlos. História & Teoria: Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade. 3.ed. Rio de Janeiro: FGV, 2009. p.129.
[4]     Ibid., p.153.
[5]     Consideramos o uso do termo “paradigma” – apesar de seu domínio atual no jargão profissional de diferentes áreas de conhecimento, graças à obra de Thomas Kuhn (A Estrutura das Revoluções Científicas) –, como problemático, especialmente levando em consideração o sentido que o autor atribui à expressão “mudança de paradigma” na citada obra e que já causou incontáveis respostas de cientistas e historiadores das ciências. Ver: MAYR, Ernst. As revoluções científicas de Thomas Kuhn acontecem mesmo?. In: _______. Biologia, ciência única. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
[6]     BARROS, José D'Assunção. Teoria da História, volume 1: Princípios e conceitos fundamentais. Petrópolis: Vozes, 2011. p.163.
[7]     Tradução do original: “Man hat der Historie das Amt, die Vergangenheit zu richten, die Mitwelt zum Nutzen zukünftiger Jahre zu belehren, beigemessen: so hoher Ämter unterwindet sich gegenwärtiger Versuch nicht: er will blos zeigen, wie es eigentlich gewesen“. RANKEN, Leopold von. Vorrede zur ersten Ausgabe, Okt. 1824. Geschichten der romanischen und germanischen Völker von 1494 bis 1514 zur Kritik neuerer Geschichtsschreiber. 3.ed. Leipzig: Verlag von Duncker und Humblot, 1885. p. vii.
[8]     A crítica original encontra-se ao longo de: POPPER, Karl. A miséria do historicismo. Tradução Octanny Silveira da Mota e Leonidas Hegenberg. São Paulo: Cultrix, 1991. [O autor, ademais, resumiu seus argumentos em: “Previsão e Profecia nas Ciências Sociais”. In: GARDINER, Patrick. Teorias da História. 6.ed. Tradução Vítor Matos e Sá. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008. p. 335-346.]
[9]     WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[10]   Idem. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1972.
[11]   BARROS, Op. cit. p.98.
[12]   GEERTZ, Clifford. Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura. In:_______. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. p.3-21
[13]   IGGERS, Georg. Historiography in the Twentieth Century: From Scientific Objectivity to the Postmodern Challenge. Hanover, EUA: Wesleyan University Press, 1997.
[14]   CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Tradução Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p.65-67.

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