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"No princípio era o conflito..."

domingo, 15 de junho de 2014

Pela Plena Liberdade Jornalística e Intelectual


Reconheço que fui, até certo ponto, um privilegiado em termos culturais. Livros, jornais e revistas sempre estiveram presentes em minha vida, e contribuíram – alguns ousariam incluir aqui “para o bem ou para o mal” – com minha formação intelectual. “Culpa” da família e, principalmente, minha própria!


Apesar de minhas limitações para focar minha atenção em qualquer coisa por muito tempo – o que torna minha sujeição à pressão externa um enorme desafio –, sempre escrevi muito (o que não significa, em absoluto, que escrevesse ou escreva bem!). Foi isso que me levou ao envolvimento com o jornalismo opinativo escolar quando ainda muito jovem. Nunca, entretanto, tive interesse em formação na área específica de “Jornalismo” na Universidade. Escolhi outras formações acadêmicas, apesar de escrever duas colunas semanais publicadas em diferentes jornais nos Estados Unidos, e de haver trabalhado para uma grande rede da área.


Escrever, em minha experiência jornalística, tinha muito pouco a ver com um diploma específico em Jornalismo ou em qualquer outra área. Tinha, sim, uma ligação necessária com a formação cultural do autor, com a atenção aos detalhes de seu objeto de discussão, com sua capacidade de lidar com ideias e com sua eticidade profissional. Essa compreensão moldou minha atuação na escrita, no patrocínio a jornais estudantis nas escolas nas quais ensinei, e em meu trabalho ainda hoje.


Aquele espírito de liberdade que conheci em minha época do Post foi, talvez, uma das maiores contribuições para que não tivesse interesse em escrita acadêmica, mesmo durante a pós-graduação. Sempre achei a liturgia acadêmica insuportável. Não queria escrever artigos acadêmicos que não dialogavam com quem queria dialogar. Queria escrever para a pessoa comum – sim, a pessoa que tivesse um mínimo de cultura para poder entender meu humor sarcástico e minhas referências intelectuais, mas alguém que vivesse no “mundo real”, que apreciasse a escrita de opinião informada sem as amarras da validação acadêmica.


A liberdade que conheci sofreu um certo abalo no Brasil, com sua onipresente cultura de regulamentações profissionais – seguida, no campo das atividades ditas “intelectuais”, não apenas por entidades de jornalistas, mas também de historiadores, teólogos, filósofos etc. Em 2009, quando o STF derrubou a exigência da formação em Jornalismo para o exercício da atividade no país – e quando voltei a escrever semanalmente para jornais nos EUA e Canadá –, essa cultura não foi vencida. Ao contrário: ela permanece, e ganha força nos discursos dos defensores da burocracia corporativista e de seus discípulos nas faculdades e universidades que formam esses “intelectuais”.


Eu, como cidadão e intelectual livre, e como jornalista sem “formação jornalística” (mas, mesmo assim, publicado numa “syndicated column”), prefiro seguir a velha definição de Jornalismo do jornalista suíço, com formação teológica e filosófica, Daniel Cornu, quando escreve que:


"O jornalismo é uma `profissão aberta´, que não exige formação específica ou diploma. Sua definição é tautológica: é considerado jornalista quem exerce sua atividade principal na imprensa escrita ou nos meios de comunicação audiovisuais. Mais precisamente, são reconhecidos como jornalistas os agentes da mídia, independentemente dos meios ou técnicas de expressão utilizados, que satisfaçam três critérios: a concepção e realização de uma produção intelectual, uma relação deste trabalho com a informação, além do critério de atualidade." (CORNU, Daniel. Ética da Informação. Tradução Laureano Pelegrin. Bauru: EDUSC, 1998. p.19)


É uma vergonha que entidades e corporações profissionais que se apresentam como defensoras da liberdade de opinião – quando lhes convêm, claro – se engajem numa redefinição do que seja essa liberdade e para quem ela seja válida na Constituição Federal, em nome dum corporativismo classista. Uma vergonha!... E o mesmo vale para todos aqueles agrupamentos de “intelectuais” que buscam o mesmo, sejam eles historiadores, filósofos, teólogos etc.


Gibson da Costa