liberdade

liberdade
"No princípio era o conflito..."

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A "América" e os "americanos"... uma resposta a um crítico


Fui duramente criticado por um leitor por utilizar o adjetivo “americano” para fazer uma referência aos Estados Unidos da América. Meu crítico pensava que estava me dando uma lição de história com seus argumentos anti-imperialistas, mas ele esqueceu-se de alguns dados importantes. E, por isso, resolvi dividir com ele algumas considerações que sempre trago à tona com meus alunos.

Nos países ao sul dos Estados Unidos da América, é comum haver uma resistência e antipatia à forma como os cidadãos daquele país se identificam e se referem ao seu lar. Essa resistência e antipatia, possivelmente, têm uma origem no contexto das relações que se desenvolveram ao longo da história entre os Estados Unidos da América e os demais Estados-nação do continente. Assim, você identifica a utilização do adjetivo “americano” para se referir a alguém/algo natural dos E.U.A. como uma manifestação da suposta prepotência imperialista “norte-americana”.

Particularmente, enxergo a utilização do substantivo “América” e do adjetivo “americano” para fazer referência aos Estados Unidos da América de outra forma. Levo em consideração não apenas a história dos termos em si, como também a própria língua inglesa. Como não partilho das perspectivas políticas que acredito serem a principal fonte daquela resistência e antipatia ao uso dos termos em questão pelos nacionais de outros Estados-nação ao sul do Rio Grande, escolho utilizar aqueles termos para me referir aos naturais dos, ou relativos aos, Estados Unidos da América. Isso porque, em minha perspectiva, não há sentido histórico ou linguístico (quando se consideram a história americana e a língua inglesa, isto é) para que utilizemos hoje expressões como estadunidense ou norte-americano, por exemplo.

Pare por um segundo e analise o termo “estadunidense”. Ele se refere, claramente, ao nome “Estados Unidos”; mas “Estados Unidos” não constitui o nome da terra ou da nação, mas sim da entidade política (o Estado). É algo semelhante ao nome “República Federativa do Brasil”. Ninguém no Brasil falaria de si mesmo como sendo “republicano-federalista” (ou seja lá que adjetivo se construísse a partir do nome do Estado brasileiro), mas sim como brasileiro(a). Ninguém na República Argentina, até onde sei, identifica sua nacionalidade como sendo “republicana”, mas sim como argentina. Semelhantemente, os fundadores da república americana escolheram chamar suas terras de América, e a entidade política que criaram (uma federação de Estados independentes) de Estados Unidos da América – isto é, entidades políticas que se encontravam na América e que se reuniram para formar uma entidade maior –, e a partir do nome que deram às suas terras, faz pleno sentido identificarem-se como americanos.

Se fizermos a mesma análise, tentando deixar de lado o preconceito político, entenderemos que o adjetivo norte-americano também não é muito útil. Afinal de contas, os americanos (os naturais dos EUA) não são os únicos norte-americanos. Obviamente, utilizo aqui o mesmo raciocínio utilizado por aqueles que condenam o adjetivo “americano”, afirmando que os naturais dos E.U.A. não são os únicos americanos; a limitação de seu argumento, entretanto, está em não se levar em consideração que os E.U.A. é o único país no continente que se chama explicitamente de “América” – o que torna o adjetivo “americano” linguisticamente apropriado. E se fizéssemos um uso semelhante quanto ao Brasil ou à Argentina, veríamos que uma auto-identificação como sul-americano não ajuda muito para fazer referência a uma identidade nacional.

Por essas razões, utilizo e continuarei a utilizar, em minha escrita e fala (em português, já que em inglês não há outra alternativa, de qualquer jeito), o adjetivo americano(a), e não norte-americano(a) ou estadunidense, para me referir a pessoas ou coisas relativas aos Estados Unidos da América – independentemente do uso feito no Brasil. Você, entretanto, tem a liberdade de utilizar o adjetivo que lhe pareça mais conveniente.

Assim, antes de lançar tantos adjetivos deselegantes em minha direção, você talvez deva desenvolver um senso de criticidade inclusive para com seus próprios preconceitos políticos – que parecem impedir seu raciocínio!

Um grande abraço de seu objeto de crítica!

OBS.: Aproveitando o tema, quem tiver interesse em aprender mais sobre HISTÓRIA AMERICANA, recomeço a oferecer o curso online gratuito "Reading America: An Introduction to U.S. History in Portuguese" [Lendo a América: Uma Introdução à História dos E.U.A. em Português] em novembro, no Eliademy. Quem quiser maiores informações, é só me contactar.


Gibson