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"No princípio era o conflito..."

sábado, 18 de outubro de 2014

Clareza semântica, integridade intelectual e moralidade política: é isso que quero na campanha eleitoral


Sempre tive muita antipatia ao uso indiscriminado de certos termos para falar sobre a vida social. Usamos alguns deles de forma tão vaga que, mesmo inconscientemente, subtraímos de alguns seu sentido histórico – ignorando não apenas os conceitos tradicionais a eles atrelados, como a carga psicológica que levam.

Exemplos disso se encontram no uso feito de termos como democracia e ditadura, e seus correlatos. Se prestarem atenção às campanhas políticas, por exemplo, perceberão que quando um determinado grupo social deseja ou aprova algo, aquilo é classificado como democrático; e quando não deseja ou desaprova algo, aquilo é chamado de ditatorial. O uso indiscriminado desses termos, além de ignorar teorias filosóficas/sociais/políticas bem estabelecidas, viola a carga psicológica que esses termos ganharam, por exemplo, como consequência da experiência histórica brasileira com ditaduras e no esforço pelo estabelecimento da democracia, levado a cabo por cidadãs e cidadãos que abraçaram o processo político e rejeitaram à violência e à “selvageria”.

Hoje, quando antigos grupos “guerrilheiros” dizem ter pego em armas em “defesa da democracia”, deve-se questioná-los se sua “democracia” era a mesma defendida por aqueles outros que encontraram meios políticos para se opor ao último regime ditatorial que dominou o Brasil; se era a mesma “democracia” defendida por inúmeros jornalistas que utilizaram a escrita como força de libertação e (re)democratização. Hoje, obviamente, a verdade daqueles grupos se tornou tão dominante que ninguém vê nada de errado com sua apropriação do termo “democracia”. O problema é que quando eles são classificados de democráticos, violamos a memória daquelas inúmeras pessoas que nunca pegaram em armas, nunca sequestraram ninguém, nunca mataram, mas mesmo assim sofreram nas mãos de torturadores. Essa, para mim, é razão suficiente para fazer uma opção por definições claras!

Quando grupinhos selvagens incendeiam as ruas do país, afirmando estarem “lutando por democracia”, me pergunto se sua “democracia” era a mesma que fez com que minha tia-avó – que só escrevia para um jornal e ministrava aulas numa universidade – sofresse nas mãos de torturadores. Tenho certeza que não. Suas visões do que é democracia não poderiam ser mais distintas uma da outra. Essa, para mim, é razão suficiente para deixar claro o que quero dizer quando uso certos termos!

Quando certos grupos tentam classificar nosso governo – por mais que eu pessoalmente não tenha nenhuma simpatia por ele – como ditatorial, estão pisoteando a memória daqueles que experienciaram um regime ditatorial no Brasil, ou daqueles que encontraram um lar no Brasil após fugirem dum regime ditatorial alhures. Essa é razão mais que suficiente para escolher a clareza semântica/nocional.

Outro termo usado indiscriminadamente nesse ambiente de guerra eleitoral no qual vivemos, hoje, é fascismo, e seus correlatos. Qualquer pessoa que classifique qualquer candidato ou partido político brasileiro como fascista não tem ideia do que esse termo significou para aqueles seres humanos que experienciaram um regime fascista. Não consigo encontrar nenhuma definição – sejam a de Payne, Linz, Eatwell, Ramos, Griffin, Nolte etc – que justifique o uso desse termo para fazer referência a nenhum dos dois atuais candidatos à Presidência da República. Essa é razão mais que suficiente para ser semanticamente claro em campanhas eleitorais ou em artigos jornalísticos.

Fazer política partidária e jornalismo, num regime democrático – que é o que o Brasil experiencia em sua história atual –, exige integridade intelectual, clareza e honestidade para com o público. Essas são características que, mesmo que pareçam utópicas, deveriam integrar qualquer “mudança” que nossa sociedade possa esperar politicamente. É uma pena que ainda não tenhamos nos dado conta disso. E é uma vergonha que os dois candidatos à Presidência – um deles aquela que já é Presidente – não demonstrem preocupação nenhuma com esse aspecto moral da política.

Gibson