segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Terceiras breves reflexões sobre o 2º turno nas eleições


Apesar de geralmente não declarar meu voto, qualquer um que me conheça sabe em quem votei para Presidente no primeiro turno das eleições, e em quem continuarei a votar no segundo turno. Apesar de não ser o que chamo de “eleitor tiete” (o eleitor que declara, explícita ou implicitamente, que seu candidato é um tipo de “salvador da Pátria” e que abre mão da criticidade em favor duma bajulação personalística), minhas convicções político-partidárias sempre foram muito claras.

Como um defensor e praticante convicto da democracia liberal, apesar de defender minhas convicções políticas, estou comprometido com o direito de as pessoas expressarem suas opiniões num espírito de equidade e civilidade. Assim, se você é eleitor deste ou daquele candidato ou partido, faço questão de respeitar sua dignidade pessoal – tanto como ser humano, quanto como cidadão e eleitor – e não agredi-lo por pensar e fazer escolhas políticas diferentes daquelas que constituem minhas opções pessoais. Não compro as disputas de políticos, então não romperei amizades (reais ou virtuais) simplesmente por você acreditar numa ideologia à qual me oponho ou votar em candidato no qual não voto.

Penso serem ridículas as atitudes demonstradas por tantos nessas últimas semanas de atacarem seus colegas, amigos, vizinhos, familiares em suposto favor daqueles que querem continuar no poder ou daqueles que querem assumi-lo. Eles e elas frequentam seus clubes sociais e tomam seus drinques juntos, enquanto os reles mortais se estapeiam em nome deles. Esse tipo de atitude por parte dos eleitores é de uma infantilidade para mim incompreensível.

Além da infantilidade dessas disputas – que pode dizer algo sobre a (i)maturidade emocional e intelectual de alguns –, há o aspecto referente ao espírito de civilidade democrática que preza pela tolerância à diferença de opiniões, que é violado por essas disputas ativistas, tanto na vida real quanto na virtual. Isso, obviamente, não quer dizer que não possamos expor nossas opiniões contraditórias e/ou mesmo atacar as convicções alheias – significa, sim, que deveríamos nos lembrar que quando utilizamos certos adjetivos contra aqueles que pensam diferentemente de nós, que até ontem eram nossos amigos, nos expomos como inimigos da democracia e da liberdade.

Se alguém ainda tem qualquer dúvida, explicito que minha escolha é pela saída do atual governo petista – em consonância com minhas convicções ideológicas e partidárias. A retórica da divisão utilizada pelas campanhas do PT, desde sempre, entre “eles” e “nós”; as investidas contra as instituições de direito em nome do favoritismo eleitoreiro; suas associações escusas, enquanto vende-se como porta-voz da virtude política, dentre tantas outras coisas, tudo isso torna o establishment petista (não a pessoa da Presidente Dilma Rousseff, a propósito) indigno de continuar na direção do governo. Esta tem sido e é minha convicção.

Muitos compram o discurso da campanha do governo. O “nunca antes na história do Brasil” imprimiu-se sobre a mente de muitos, graças ao personalismo lulista e agora, mesmo que a frase tenha mudado, é repetido nas bocas dos dilmistas. A justificativa utilizada mesmo por muitas pessoas supostamente instruídas, quando falam sobre o suposto “risco” representado por Aécio Neves para “os mais pobres”, por exemplo, só explicita sua não compreensão das e não confiança nas instituições democráticas, porque o que estão dizendo, em outras palavras, é que a Presidência é um trono agora destinado exclusivamente aos filhos do PT, à dinastia lulista – e todos os que não sejam fruto dessa linhagem são ilegítimos.

O argumento, na verdade, deveria ser o de que se os governos petistas (três até agora – quatro anos a mais que os dois únicos mandatos do PSDB, é bom lembrar) fizeram algo realmente relevante e bom para “os mais pobres”, e aqui é bom que eu reconheça que o fizeram, então esses eleitores não deveriam temer o fim de ações de bem-estar social. Isso porque teriam estatizado essas ações, e não apenas as “governamentado”.

Eu, como sabem, não compro aquele discurso. Não compro o discurso do “eu fiz mais por você, então você não pode me abandonar agora” – já que o que isso quer dizer é que 1) eles fizeram um favor a você, e não simplesmente cumpriram sua obrigação; 2) você recebeu uma esmola, e não seu direito; 3) você não pode usar seu direito de questionar e remover, etc. Essa declaração é feita todas as vezes que alguém, se referindo ao FIES, por exemplo, diz algo como “quando um pobre conseguiria fazer faculdade antes?”. Essa pessoa – alguém real com quem conversei recentemente –, obviamente, ignora e é levada a acreditar pela campanha do governo que aquele programa fosse uma criação da atual Presidente. Não sabia ela que o antigo “Crédito Educativo”, que deu origem ao programa, fora criado ainda na década de 1970, e que o FIES em si foi criado em 1999 durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O mais interessante nisso tudo é que aquela pessoa era docente universitária de História – e se ela comprou o discurso salvacionista, o que esperar de eleitores mais jovens que cresceram na era do consenso petista?

O foco central de minhas convicções democráticas é o de alternância. Uma democracia representativa – e o papel de seus participantes (eleitores e eleitos) – só amadurece quando há alternância, quando nenhum grupo político se enxerga ou é enxergado como detentor absoluto e/ou exclusivo dos anseios democráticos do “povo”, quando há a oportunidade de pelo menos dois atores partidários distintos se alternarem no poder – esperançosamente mais que apenas dois. Quando não há essa alternância, cria-se o tipo de distorção na percepção que muitos brasileiros hoje têm do processo democrático – mesmo pessoas formalmente instruídas. E isso, em minha opinião, é um desfavor à democracia representativa, o tipo de democracia estabelecido pela Constituição brasileira.

Como um liberal democrata, voto por convicção ideológica; como um crente no processo democrático representativo e na responsabilidade cidadã, voto pela alternância democrática. Voto pela saída do PT. As férias farão bem a eles, para que se repensem e se reencontrem com suas antigas declaradas virtudes.

Se você acredita em outra coisa, não o xingarei, não o desmerecerei, não violarei sua dignidade pessoal, nem porei um fim à nossa amizade. Por favor, não seja descortês, como não fui com você. Permita-me usar minha inteligência da forma que julgo mais condizente com minhas convicções pessoais, da mesma forma como você faz com a sua.

Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

Gibson da Costa Em 2013, incendiaram as ruas, em protestos contra a corrupção e o descaso. Em 2014, votaram absolut...