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"No princípio era o conflito..."

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Autoridade hierarquizada vs. autonomia na educação formal


Poucas instituições são tão hierarquizadoras quanto as instituições de ensino oficial – sejam elas da Educação Básica ou da Educação Superior. Independentemente das perspectivas agógicas (isto é, pedagógicas, hebegógicas, adagógicas, gerentogógicas etc) adotadas pela instituição ou pelo professor, a educação formal sempre se baseia na dependência dos estudantes para com um eixo hierárquico de autoridade – autoridade esta que pode se centrar na figura do próprio professor, dos textos escolares/acadêmicos, das tradições que modelam a sociedade, etc. O fato é que, por mais que neguemos isso, a educação institucionalizada, de modo geral, faz muito pouco para ajudar os estudantes a se tornarem realmente autônomos – e isso desde a mais tenra idade.

Lembro-me de quando comecei a ensinar numa determinada escola pública nova iorquina há cerca de uma década atrás. Discutíamos um de meus temas favoritos em História dos EUA – o chamado “Movimento pelos Direitos Civis” (o segundo, de meados do século XX) –, e três de meus alunos fizeram uma reclamação formal a meus superiores por eu os estar “forçando” a ler outras coisas e a ouvir testemunhos de visitas que trouxe à sala, enquanto deixava de lado o livro didático de história. Seu argumento era que eu estava tirando deles a oportunidade de estudarem o “currículo oficial” e se prepararem para as provas aplicadas pelo Departamento de Educação do Estado (felizmente, meus superiores discordaram da opinião daqueles alunos!).

Aquele incidente me deixou extremamente perturbado por algum tempo. Perturbei-me porque a reclamação, aparentemente, partira dos próprios alunos, e não de seus pais. Mesmo sendo apenas três deles – os considerados mais brilhantes da turma –, aquilo mostrava a compreensão que tinham do que deveríamos fazer em sala: eles seriam apenas receptores dum conhecimento acabado, e eu não passava dum transmissor. Ficava me perguntando o que tínhamos (a escola) feito com aqueles adolescentes para que rejeitassem a oportunidade de chegarem às suas próprias conclusões por meio do conhecimento de outras opiniões que podiam diferir do que o livro didático lhes oferecia. Aqueles estudantes, no final das contas, só estavam seguindo o que a escola os adestrara a fazer: sigam as regras, repitam o que “aprenderam”, e tudo estará bem!

Aquele incidente, para mim, retrata bem o efeito que a mentalidade autoritária pode ter na percepção que estudantes têm de seu valor e capacidades – e isso ocorre igualmente na Educação Superior. Frequentemente, a escola/universidade parece treinar pessoas para que sejam excelentes repetidores do que já foi dito e feito, mas incapazes de criar algo novo a partir daquilo que supostamente aprenderam. Nas humanidades, por exemplo, professores se esforçam para ensinar o que, para eles, é certo; mas não esperam de seus estudantes a capacidade de apresentarem um alto nível de discordância – isto é, uma discordância que apresente argumentos bem fundamentados, de acordo com a capacidade e experiência do estudante.

Esse problema da autoridade na educação me faz lembrar da questão do 2+2. Como gosto de dizer, 2 + 2 nem sempre é igual a 4. Esse resultado sempre dependerá da escala de medida que utilizamos (se nominal, ordinal, intervalar, ou de razão). E apenas nas escalas intervalar e de razão o resultado será 4. O motivo pelo qual pensamos que 2+2 é sempre igual a 4 é porque, na escola, a maioria de nós apenas utilizou a escala de razão.

Se nem com a matemática podemos atingir um produto que sempre será inquestionavelmente correto, o que dizer das humanidades?... É justamente por isso que prefiro que os estudantes sejam capazes de chegar a conclusões próprias (mesmo que pessoalmente não concorde com elas), construindo seus argumentos por meio da análise das evidências, comparando seus argumentos com aqueles que a instituição escolar lhes impõe, do que ensiná-los a aceitar a “tradição” sem questioná-la. Quem sabe um dia as escolas e as universidades não se tornarão templos da autonomia, espaços onde discordar construtivamente seja mais importante que marcar a opção “correta” em provas padronizadas... Sonho com esse dia!

Gibson

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pelo direito a ofender por parte de meus ofensores: ainda sobre a noite passada


Não me compreenda mal. Dificilmente você conhecerá alguém tão diplomático quanto eu, no que tange ao respeito àqueles que são, de alguma forma, diferentes de mim. Isso se justifica por minha história pessoal: várias vezes imigrante, de pele colorada, plurilinguístico, com ideias religiosas e políticas não muito populares... ser “diplomático” no que concerne às relações sociais é não apenas uma obrigação para alguém com meu background sociocultural, é uma questão de sobrevivência (já que não me encaixo facilmente em nenhuma categoria predeterminada).

Apesar da estratégia diplomática na gestão de minhas relações sociais, entretanto, defendo o direito à livre expressão de opinião, o que inclui, necessariamente, o direito a ofender a sensibilidade alheia.

Já posso até imaginar o que você está pensando! Então, é melhor esclarecer o que quero dizer por “ofender”, antes que você espalhe por aí que estou fazendo apologia à violência. Ofender, aqui, se limita a causar desconforto, provocar raiva e desgosto, irritar, contrariar, violar o pensamento e as regras alheias.

Ofender é uma das artificialidades mais “naturais” da existência social humana. Se crianças pequenas saírem às ruas nuas, ofenderão a sensibilidade da maioria dos adultos socioeconomicamente privilegiados. Se dois rapazes se beijarem em público, ofenderão a concepção que a maioria dos homens tem sobre masculinidade, em qualquer lugar do Brasil. Se, há não muito tempo atrás, uma mãe descasada trabalhasse fora, ofenderia o que a maioria dos brasileiros esperava duma “mulher respeitável”. Grandes mestres espirituais da humanidade ofenderam as sensibilidades de seus contemporâneos. Grandes literatos e artistas da modernidade ofenderam as sensibilidades artísticas de seus antecessores. Os exemplos de ofensores se multiplicam.

Ofendemos quando dizemos ou mostramos aquilo que não querem escutar ou ver. Somos ofendidos quando escutamos ou vimos aquilo que não queremos que digam ou mostrem. Ofendemos e somos ofendidos porque nenhum ser humano é igual. A tal igualdade não passa dum mito romântico que serve como antídoto à ofensa encarnada na diversidade humana. A ofensa, assim, desempenha um papel indispensável à liberdade de expressão e à afirmação da diversidade humana. Dessa forma, ela (a ofensa) não pode servir de ofendículo à liberdade de expressão.

Não temo a ofensa à minha sensibilidade. Xingar-me com termos que se refiram à minha cor, minha orientação emotivo-sexual, minha religião, meu credo político, minha profissão, minha nacionalidade, minha língua, meu background sociocultural etc, é apenas afirmar um fato – e se não um fato, uma mentira. Logo, para mim, é apenas um exercício da vida em meio à diversidade humana. Também não temo dizer o que penso. Tenho maturidade suficiente para continuar a ofender de forma diplomática!

Gibson