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"No princípio era o conflito..."

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O “tiro no pé” do Mormonismo ortodoxo em sua tentativa de silenciar o corajoso John Dehlin: quando discordar respeitosamente torna-se uma declaração de guerra


Gibson da Costa

[…] Os mórmons devem ser tratados como inimigos, e devem ser exterminados ou expulsos do estado, se necessário, para a paz pública – seus ultrajes estão além de qualquer descrição. […]
(Ordem Executiva nº 44, do Governador Lilburn W. Boggs, do Estado de Missouri – 27 de outubro de 1838)

Antes que você se choque com a citação acima nesta página, é bom que eu esclareça que não a incluí aqui por concordar com suas palavras. Se você não tiver ligação com a tradição dos “santos dos últimos dias” (SUD), conhecida popularmente como “mormonismo”, nem dedica-se ao estudo da tradição a partir de seu exterior, possivelmente desconhece a história de perseguição e sofrimento que seus primeiros adeptos sofreram. Não é exagero afirmar que os “mórmons” consistiram o grupo religioso mais brutalmente perseguido na história dos Estados Unidos – o que, de certa forma, ajuda a compreender seu senso de vitimização e exclusão enraizada especialmente na memória das comunidades “mórmons” de Utah e de estados vizinhos, e a cultura de intolerância institucional à não-conformidade doutrinária ou hierárquica n' A Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Últimos Dias (AIJCSUD) [sim, o artigo definido feminino singular é parte do nome da denominação, por isso a não contração aqui].

Hoje, a vítima dessa cultura é John Dehlin, um prominente intelectual e blogueiro SUD que ousa defender publicamente posições sobre o tratamento de mulheres, de minorias étnicas e sexuais e de intelectuais, na AIJCSUD, que entram em conflito com as práticas da denominação com relação aos não conformistas em seu seio.

No próximo dia 8 de fevereiro, Dehlin será levado diante dum Conselho Disciplinar de sua igreja para ser julgado por sua “apostasia” (heresia). Seus líderes o julgarão com base em sua auto-apresentação, em sua página na internet, onde afirma:

Tenho um profundo amor pela igreja SUD, por seus membros e por seus ex-membros. Me considero como um mórmon não ortodoxo e não ortopráxico. Acredito em muitas dos ensinamentos morais centrais e não-distintivos do Mormonismo (por exemplo, amor, generosidade, caridade, perdão, fé, esperança), mas ou tenho sérias dúvidas sobre, ou não mais acredito em muitas das reivindicações de verdades fundamentais da igreja SUD (por exemplo, o Deus antropomórfico, “única igreja verdadeira com autoridade exclusiva”, que o atual profeta da igreja SUD recebe comunicações privilegiadas de Deus, que o Livro de Mórmon e o Livro de Abraão são traduções, poligamia, ensinamentos racistas no Livro de Mórmon, que ordenanças são exigências para a salvação, obras em favor dos mortos).
[…]
Creio que muitos líderes da igreja SUD têm boas intenções, mas me perturbo profundamente por seu tratamento histórico e atual das mulheres, de minorias raciais e sexuais, e de cientistas/intelectuais. Perturbo-me também por sua abordagem histórica e atual à fé/dúvida, sexualidade, pela busca de vastos interesses comerciais juntamento com sua não divulgação de seus dados financeiros, coerção/envergonhamento de membros por meio do impedimento de privilégios no templo e no sacerdócio, e a atual mentalidade de adoração à liderança na igreja SUD. Creio que o desencorajamento de críticas a líderes da igreja SUD é, possivelmente, o aspecto mais pernicioso e prejudicial da cultura da igreja SUD – e que a luz do sol e a candura sejam os melhores desinfetantes.

Dedicarei os anos restantes de minha vida a: 1) ajudar a minimizar o dano, e maximizar o bem, nas culturas secular e religiosa, e 2) ajudar aqueles que estão deixando a ortodoxia religiosa a encontrar alegria, sentido e satisfação em suas vidas, famílias e comunidades – seja dentro ou fora duma estrutura eclesiástica formal.
[…]

Esse é o pecado de John Dehlin. Sua grande apostasia e rebelião!

O julgamento perante um Conselho Disciplinar, a propósito, é um procedimento comum a todos aqueles que são acusados de pecados sérios no “mormonismo”, o que inclui o quase imperdoável pecado de questionar a doutrina ou discordar da hierarquia da AIJCSUD. Ocorre sob a presidência do Presidente de Estaca (“Estaca” é o correspondente a uma diocese nas tradições anglicana, luterana ou católica, por exemplo). A punição pode chegar ao máximo de excomunhão – que, na teologia mórmon, significa perda da “exaltação”, caso não haja um arrependimento pleno, e o isolamento social pleno (já que um excomunhado frequentemente é discriminado por seus amigos e familiares SUD – ou seja, como diria uma amiga minha que já passou por isso, “o mal é cortado pela raiz”).

Antes que você questione as motivações de Dehlin, vale a pena saber quem ele é.

Nascido na “mormoníssima” Boise, em Idaho – apesar de criado no Texas –, Dehlin vem duma tradicional família SUD. Após servir como missionário na Guatemala para sua igreja (1988-1990), frequentou a BYU (Universidade Brigham Young), onde se formou em Ciência Política. Depois de formado, trabalhou para várias empresas da área de computação, incluindo a Microsoft, e para a própria AIJCSUD. Trabalhou, ainda, para a Universidade Estadual de Utah e para o MIT, no desenvolvimento e coordenação de programas de educação online.

Na Universidade Estadual de Utah, também fez seu mestrado, pesquisando o desenvolvimento dum tratamento para o TOC baseado na experiência religiosa, com foco na população mórmon de orientação gay que se submetia a tentativas de mudança de orientação sexual. E, hoje, termina seu doutorado em Psicologia Clínica e Aconselhamento, aprofundando sua pesquisa sobre a relação entre religião e saúde mental.

É casado com Margaret – os dois foram ortodoxamente “selados” num templo SUD –, e é pai de três filhas e um filho.

Ele tem sido um personagem central no movimento de levar o “mormonismo” para o universo das discussões online com aqueles mórmons interessados em discutir a história e as ideias da tradição SUD. Seu trabalho tornou-se, desde o início dos anos 2000, um suporte especialmente àqueles SUD que se viam excluídos por não poderem discutir suas dúvidas, nem encontrarem uma rede de apoio dentre seu próprio povo. Participou na organização duma rede de mórmons para apoiarem jovens gays mórmons, que sofrem uma alta incidência de suicídio, especialmente em Utah e estados vizinhos. Tornou-se um bastião de esperança para muitos em sua própria denominação.

Dehlin disse hoje numa entrevista ao The Salt Lake Tribune que se for excomunhado, respeitará a decisão da igreja. Para ele, a igreja tem o direito de decidir quem pode continuar a ser membro.

O que os poderosíssimos líderes mórmons de Utah não se dão conta, entretanto, é que sua já longa perseguição a John Dehlin – baseada numa afirmação feita fora da igreja por um membro que não ocupa posições de liderança na mesma – poderá tornar-se um “tiro no pé” da própria igreja SUD. Imaginem ter de explicar isso ao eleitorado dos Estados Unidos do século XXI, se Mitt Romney se pré candidatar, mais uma vez, a Presidente dos EUA... É aguardar e ver o que acontece!

+Gibson

domingo, 18 de janeiro de 2015

Muçulmanos e felizes!


Quando os “gênios” da televisão – sim, estou sendo sarcástico! – falam do Islã como se este vivesse intrinsecamente em conflito com a “cultura secular”, não se dão conta de que não há apenas um único Islã, há diferentes vozes dentro desta tradição de fé, há conflitos entre diferentes interpretações no interior desta religião. Talvez não dissessem tantas bobagens, maquiadas por uma suposta sofisticação intelectual, se se dessem ao trabalho de ler mais, se informar mais, e, principalmente, conhecer mais muçulmanos!

Um grupo de muçulmanos britânicos – seguido por outros ao redor do mundo – há cerca de um ano fez um vídeo no qual cantam e dançam ao som de “Happy”, de Pharrell Williams, e que causou reações que mostram essa multiplicidade de vozes no interior do Islã (já que houve protestos por parte de grupos, digamos, mais “tradicionalistas”)...

O fato é que o Islã possui tradições de radicalmente “conservadoras” (como o wahhabismo saudita) a radical ou moderadamente “liberais” (como os movimentos “progressista”, “liberal” e “modernista” na Indonésia, no Reino Unido, na Rússia, na Turquia, no Canadá e nos Estados Unidos). Assim, é uma desonestidade intelectual retratar todos os muçulmanos como fanáticos – da mesma forma que o seria fazê-lo com judeus, cristãos, ou qualquer outra fé.

Então, em homenagem a todos os muçulmanos que fizeram e fazem parte de minha vida, deixo você com a felicidade de diferentes muçulmanos, que contradizem aquilo que a islamofobia desinformada quer que acreditemos!


sábado, 10 de janeiro de 2015

A onipresença da polarização na relação com “o outro”





Ela parece estar em todos os lugares. É só estar atento ao que se diz lá fora. A polarização parece, muitas vezes, haver se tornado o termo que resume bem o espírito vocalizado nos meios de comunicação e nos púlpitos políticos e religiosos mundo afora.

Obviamente, nos negamos a reconhecê-la como parte de nosso sofisticado imaginário (pós)moderno – mas, por mais que neguemos sua presença, ela está lá, envergonhando nossa suposta capacidade de racionalizar, de forma refinada, nossa realidade social. Gostemos ou não, a onipresente polarização nos domina.

Defrontadas com uma perceptível ameaça externa, as pessoas tendem a se esquecer de suas diferenças e a formar um grupo unificado. Esse processo de coesão é uma característica importantíssima da polarização. A melhor representação pictórica disso encontra-se nas imagens do atual e do anterior presidentes franceses, Hollande e Sarkozy, juntos esta semana. As diferenças são engavetadas, mesmo que apenas temporariamente, em nome dum objetivo supostamente comum – no caso dos franceses, a “guerra ao terror”.

As imagens dos protestos na Alemanha contra a presença de imigrantes muçulmanos no país – que, confesso, me aterrorizaram, por se parecerem com protestos semelhantes aos do nascente movimento nazista no século XX – apontam para outra característica dessa polarização de nosso tempo: a estereotipagem do outro. A mesma característica, aliás, presente no Brasil durante as campanhas eleitorais, e mesmo depois. Grupos rivais que adotam um conjunto de opiniões exageradamente simplificadas sobre as supostas características de seus oponentes, presumindo que todos eles compartilhem um conjunto de características indesejáveis. É só escolher o grupo simplificado: a direita; a esquerda; os fundamentalistas; os ateus; os evangélicos; os muçulmanos; os judeus; os homossexuais; os heterossexuais; os negros; os brancos; os homens; as mulheres; os ricos; os pobres; os brasileiros; os norte-americanos – e lembrar-se dos adjetivos que frequentemente são associados a esses “grupos”.

Subjacente ao desenvolvimento daquelas ideias estereotipadas sobre o outro, além dos demais aspectos da polarização, encontra-se o fenômeno da percepção seletiva. Ou seja, tendemos a ver e ouvir aquilo que esperamos ver e ouvir, especialmente quando nossas emoções encontram-se à flor da pele. Baseados no que percebemos, frequentemente reagimos de formas antagônicas aos outros, e eles, como resposta, agem de formas tais que acabam por confirmar nossas expectativas. E quanto mais intensas as emoções, maiores são as probabilidades de isso ocorrer. Mais uma vez, é só pensar no que ocorreu no Brasil durante as últimas campanhas eleitorais e imediatamente após as eleições: a ameaça da “direita” no discurso de alguns, aparentemente confirmada, posteriormente, por marchas que pediam o retorno do regime militar!

Mas a tendência de grupos polarizados a desenvolverem ideias exageradamente simplificadas (estereótipos) não se limita apenas a ideias sobre seus oponentes, também inclui estereótipos sobre si próprios. Assim, aquilo que os oponentes apontam como características indesejáveis, muitas vezes, transformam-se em ideias e racionalizações simplificadas (ideologias) que justificam os próprios sentimentos ou comportamentos. E porque as ideias são exageradamente simplificadas e imprecisas, a ideologia unifica pessoas que, de outra forma, discordariam entre si. Presos às teias da polarização e suas emoções auxiliares, poucos se dão ao trabalho de comparar a ideologia à realidade.

Quando a polarização domina, o desenvolvimento do comportamento “defensivo” de cada grupo torna-se padrão. O processo toma forma num espiral de ação-reação, que pode até resultar, em casos extremos, em muitos “defensores” mortos. E, obviamente, o elemento crucial nesse processo não é “a verdade” sobre o outro ou sobre si, mas aquilo que se pense ser verdadeiro sobre o outro e sobre si mesmo.

O espiral da ação-reação e a percepção das ações do oponente como ofensivas não são, necessariamente, processos irracionais. Como cada grupo vê o outro como uma ameça real, e a polarização se intensifica, o próximo passo defensivo lógico se torna um “ataque preventivo”. Por exemplo, um exército que se concentre numa fronteira para evitar uma invasão se parece muito com um exército que se prepara para invadir!... Não muito diferente da forma como nossas sociedades têm se comportado interna e externamente – só temos de nos dar ao trabalho de observar.

...Tornamo-nos, infelizmente, escravos dos processos de polarização em nossas relações com “o outro”. A polarização tornou-se onipresente!

Gibson

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O espetáculo do terror e o assassínio de nossa humanidade


Qualquer interessado que se dê ao trabalho de pesquisar cuidadosamente o tema saberá que não há uma definição globalmente aceita do que seja terrorismo. Isso faz com que, como escrito por Brian Jenkins ainda em 1974, o termo seja usado promiscuamente, aplicado a todo tipo de violência que, estritamente falando, não seria terrorismo. Todas as mais frequentes definições de terrorismo, entretanto, concordam que o mesmo seja um instrumento utilizado por certos atores para atingir certos objetivos, espalhando medo e ansiedade por meio de atos violentos; e esses atos violentos seriam parte do instrumento, e não o objetivo per se (JENKINS, 1974; HOFFMAN, 1998; GANOR, 2005; NEUMANN, SMITH, 2008).

Se nos ancorássemos à antiga perspectiva de Jenkins, aceita até 2001, abraçaríamos aquela sua conhecida ideia de que terroristas queririam muita atenção e não muitas mortes. Hoje, apesar de haver mudado sua perspectiva acerca do número de mortes desejado por terroristas, o autor – e todos os demais especialistas em terrorismo do mundo – continua a defender sua crença de que a publicidade do ato seja uma característica central de qualquer ação terrorista. E a importância da publicidade reside no fato de esta servir de meio para alastrar o medo e a ansiedade generalizada.

Pare e pense, por um instante, no caso francês. Foi uma tragédia humana – e, para mim, tragédia em absolutamente todos os sentidos (no que tange às vítimas, à sociedade espectadora e aos próprios criminosos). Uma tragédia que nenhum de nós – supondo que você pense como eu – gostaria de ver repetir-se em lugar nenhum do globo.

Pare e pense, agora, na cobertura dada pela mídia global à “caçada” policial a esses criminosos. Diferentes jornais, revistas, redes de televisão e rádio, do mundo inteiro, têm feito seu trabalho e divulgado as notícias relativas ao caso. Mas a cobertura – que, sim, deve acontecer, especialmente num caso em que profissionais da imprensa foram vitimados –, principalmente quando feita de forma sensacionalista, não deixa de contribuir para o objetivo final de qualquer ação terrorista: conseguir publicidade suficiente para criar um temor e ansiedade generalizados. A notícia, assim, tão essencial à liberdade e à democracia, transforma-se numa espada de dois gumes: informa-nos ao mesmo tempo em que nos torna mais uma peça no tabuleiro do jogo do terror (cujo objetivo é vencer-nos pelo medo).

E a imposição de medo intentada por terroristas tem feito mais danos às liberdades civis, naquilo que chamam de Ocidente, do que tem causado mortes diretas. A maior morte causada pelo terrorismo nas sociedades ocidentais têm sido o assassínio das antigas ilusões de liberdade e igualdade sob a lei, como uma forma de assassínio de nosso senso moderno de humanidade. Pergunte isso a qualquer muçulmano na Alemanha, França, Grã-Bretanha ou Estados Unidos, só para citar alguns casos. Essas pessoas, inocentes dos crimes cometidos pelos supostos jihadistas que vimos nos noticiários nos três últimos dias, são as que antecipadamente já pagam o preço, tendo agredidas suas dignidades e liberdades. Esta é uma cena que tem se repetido desde, pelo menos, 2001. Soa, ironicamente, como uma grande vitória dos terroristas.

Hoje mesmo, mais 7 pessoas morreram em outro atentado em Islamabad, no Paquistão. Onze haviam morrido ontem, em outra região do país. Uma bomba explodiu dentro duma mesquita no Iraque – algumas dezenas de mortos. Você viu isso ser relatado em algum noticiário de onde você está? Por que não? Por que isso não afeta nossa sensibilidade? Isso não é uma afronta ao nosso senso de liberdade e dignidade? Não é uma afronta à nossa humanidade?... Só alguns pensamentos para terminar minha sexta-feira!

Gibson



Referências:

GANOR, B. The Counter-Terrorism Puzzle: a Guide for Decision Makers. New Brunswick: Transaction, 2005. p.1-24.

HOFFMAN, Bruce. Inside Terrorism. Nova York: Columbia University Press, 1998. p.13-44.

JENKINS, Brian. International Terrorism: a new kind of warfare. Santa Monica: RAND, 1974.

NEUMANN. Peter R.; SMITH, Michael Lawrence Rowan. The Strategy of Terrorism: how it works, and why it fails. Nova York: Routledge, 2008. p.1-11.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão também para os jornalistas do Brasil, caros defensores oportunistas!




Revolto-me quando a liberdade de expressão, da qual depende a Imprensa, é atacada em qualquer lugar do mundo. Especialmente quando há mortes. Revolto-me quando essa liberdade é ameaçada, mesmo das menores maneiras. Mas outras coisas me vêm à mente quando os defensores oportunistas da liberdade dão voz a certos comentários quando tragédias como a de hoje, na França, ocorrem...

Sento-me aqui, fingindo acreditar na sinceridade fraudulenta de certos políticos e intelectuais brasileiros que se manifestam em favor da liberdade de imprensa, quando essa é atacada em outros países, ao mesmo tempo em que se calam quando esse princípio supremo da Democracia ocidental, a liberdade de expressão, é desafiado no Brasil, sem punição.



Onde estavam essas vozes quando a sede da Abril foi atacada há alguns meses atrás (atacada por causa do polêmico jornalismo da Veja)? Onde estavam essas vozes quando repórteres da Globo foram atacados nos “protestos” de 2013? Onde estão essas vozes quando tantos jornalistas são assassinados nos interiores do Brasil, a mando dos “coronéis” filiados aos partidos políticos da República?... Talvez, para esses “defensores da liberdade de expressão” de última hora – mantidas, obviamente, as devidas proporções (já que, quero acreditar, não andam executando jornalistas por aí!) –, a liberdade seja um direito de conveniência, que só pode ser manifesta se não virar uma armadilha para eles.


Gibson

domingo, 4 de janeiro de 2015

Educação moral?


Numa conversa sobre educação, ouvi comentários de alguns colegas sobre questões relativas à moral que me deixou confuso sobre se realmente conseguiam compreender o papel da moralidade na educação. Mesmo alguns pesquisadores da educação costumam, aparentemente, confundir a validade da preocupação moral na educação escolar com um antigo componente curricular ensinado durante o último regime militar brasileiro (a chamada “Educação Moral e Cívica”). Aqui, gostaria de brevemente explicar porque acredito que o que fazemos na escola pode ser identificado como educação moral.

Sei o quanto a maioria dos professores provavelmente odiaria me ouvir dizendo isso, mas o direi assim mesmo: o ensino dos componentes curriculares da área das chamadas “ciências humanas” está, inevitavelmente, entrelaçado a uma educação moral dos alunos. E não digo isso apenas para fazer um trocadilho com o nome da antiga matéria que se ensinava nas escolas brasileiras durante o último regime militar!

Se você ainda não desistiu de continuar a ler este texto, permita-me apresentar minha defesa.

Na escola, sempre que abordamos algum tema que lide com problemas que enfrentamos socialmente, no passado ou no presente – e a abordagem de tais tipos de temas ocorre com frequência na área das humanidades –, tomamos posições no que concerne a tais problemas (voluntária ou involuntariamente, favorável ou infavoravelmente, etc). Assim, se tratamos acerca de temas como escravidão, guerras, racismo, sexismo, liberdade de pensamento, discriminação religiosa, colonialismo, violência, trabalho infantil, migração etc, explícita ou implicitamente expomos nossa compreensão da natureza moral de tais questões. Se, em aula, por exemplo, condenamos o racismo, a violência e a exploração, seja por acreditarmos que sejam imorais, ou simplesmente porque somos obrigados pela legislação ou pelo senso de correção política, não importa – o que importa, aqui, é que essa condenação faz parte duma educação moral do aluno.

Felizmente, ainda não tive o desprazer de conhecer um professor ou professora que ensinasse a seus alunos que um ser humano de pele negra seja, cientificamente comprovado, inferior a um ser humano de pele branca, ou que não há nada errado em sair por aí resolvendo seus problemas por meio da força. Todos os professores e professoras que conheci até hoje na Educação Básica têm, felizmente, ensinado, explícita ou implicitamente, coerente ou incoerentemente, que há limites entre o moral e o imoral nas relações humanas – na Educação Superior isso se dá de forma distinta, onde já ouvi defesa de posições que, obviamente, não se poderia defender diante de crianças ou adolescentes. Todos esses professores e professoras, mesmo na Educação Superior – novamente, explícita ou implicitamente, coerente ou incoerentemente –, levam a cabo uma educação moral.

Quando, por exemplo, um professor universitário, que seja crítico do que chama de “moralismo religioso”, professa uma palestra acerca da condição da mulher na “sociedade patriarcal machista”, incitando reflexões e incentivando mudanças de comportamento, o que ele está fazendo é educação moral. Comparando isso ao que seria feito tradicionalmente por um religioso, por exemplo, suas premissas, suas razões, os detalhes de suas argumentações, e mesmo suas conclusões podem ser distintas, mas ambos estariam engajados num tipo de educação moral. O mesmo ocorre na escola. Você não precisa ser religioso, acreditar numa deidade, ou corresponder a todas as expectativas tradicionais de moralidade ou eticidade para se engajar no processo de ensino-aprendizagem moral. Só precisa ser humano!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Um protesto cinematográfico contra os primeiros cortes de 2015


Mesmo que sejam necessários cortes em gastos públicos, me surpreende que a reeleita Presidente da República os inicie nos direitos atuais dos trabalhadores. Ela não anunciou cortes em gastos com os milhares de cargos comissionados, por exemplo; não – os cortes foram nos direitos daqueles a quem ela jurou lealdade, os brasileiros mais pobres.

Eu, o não socialista, não petista, inicio meu 2015 protestando contra o assalto feito pela ilustre Presidente contra as camadas mais baixas da população. Faço aquilo que seus eleitores não fizeram até agora, tão ocupados com o pão e circo de final de ano.

A pergunta que resta é: onde estão os defensores do “para o Brasil continuar mudando”? Se calam agora? Defenderão agora o que ela dizia ser o plano da “direita”?

Como protesto, deixo uma das mais belas e inesquecíveis cenas do cinema em 2014. As mulheres, mães e filhas dos mineiros galeses cantando “Bread and Roses” no filme Pride, em protesto contra as ações do governo para com os mineiros britânicos em 1984.


(A canção começa a partir de 1:07m.)



Para o Brasil continuar mudando?!


Você ainda se lembra das eleições de 2014? Eu não esqueci.

Lembro-me, por exemplo, do espetáculo brutal de idiotices, subserviência e ignorância por parte dos ativistas partidários – fossem as marionetes subalternas do partido governista, fossem os imbecis vistos como porta-vozes da patética oposição. Aquele espetáculo foi um escarnecer da inteligência cidadã dos brasileiros, magnificado pelas campanhas sujas, especialmente a daquela que deveria ter se esforçado para dar um modelo maior, por já estar no Planalto, a da própria Dilma Rousseff.

Lembro-me bem dos refrões cantarolados pelos eleitores governistas – especialmente aqueles vistos como os mais instruídos e informados. Eles diziam votar em Dilma para “o Brasil continuar mudando”. Apontavam os dois outros principais concorrentes como “a direita” – a entidade indefinível do imaginário político brasileiro, cuja natureza adjetival serve para nomear todos os não radicais, se usado pelos partidos esquerdistas nanicos, ou todos os não petistas, quando usado pelos partidários do governo – que devoraria os direitos alcançados pela população. Para eles, o Brasil não mais conhecia a miséria, a fome, a corrupção, o desemprego, a inflação.

O que dizer? Coisas do eleitorado vítima da campanha do governo!

Eles repetiam a campanha do governo e, sem entender de teoria econômica, sabiam exatamente o que aconteceria se “a direita” voltasse ao poder. A própria Presidente-candidata fazia suas previsões certeiras: o aumento dos juros e o corte ou redução de benefícios sociais!

A Dilminha mulher, mãe, avó, vítima da ditadura, exemplo sacrossanto e perfeito do mundo novo, administradora sublime, salvaria o Brasil. Seus marqueteiros, obviamente, não confessaram que se ela salvaria o Brasil, essa salvação seria do mal que ela própria criara juntamente com “o Partido” – mas, deixemos isso de lado por agora!... O que importa é que só ela impediria os males que profetizava abateriam o Brasil, caso “a direita” subisse ao Planalto mais uma vez.

Só ela poderia continuar mudando o Brasil!

Hoje, 1º de janeiro de 2015, ela oficializa a posse de seu segundo mandato. Já o inicia tendo maquiado os dados econômicos, tendo impedido a divulgação do baixo desempenho da economia nacional antes da finalização das eleições. Inicia-o, tendo esperado até após a campanha para anunciar que faria tudo aquilo que acusava “a direita” de pretender fazer, antes mesmo de sua (re)posse. E, por mais que eu seja favorável a algumas das medidas macroeconômicas já anunciadas, me enojam o cinismo, a desonestidade, a pouca vergonha da campanha à reeleição da Presidente.

Como teria dito meu avô, os eleitores têm o governo que merecem!

Feliz espetáculo de posse presidencial a todos no Brasil!

Gibson