sábado, 10 de janeiro de 2015

A onipresença da polarização na relação com “o outro”





Ela parece estar em todos os lugares. É só estar atento ao que se diz lá fora. A polarização parece, muitas vezes, haver se tornado o termo que resume bem o espírito vocalizado nos meios de comunicação e nos púlpitos políticos e religiosos mundo afora.

Obviamente, nos negamos a reconhecê-la como parte de nosso sofisticado imaginário (pós)moderno – mas, por mais que neguemos sua presença, ela está lá, envergonhando nossa suposta capacidade de racionalizar, de forma refinada, nossa realidade social. Gostemos ou não, a onipresente polarização nos domina.

Defrontadas com uma perceptível ameaça externa, as pessoas tendem a se esquecer de suas diferenças e a formar um grupo unificado. Esse processo de coesão é uma característica importantíssima da polarização. A melhor representação pictórica disso encontra-se nas imagens do atual e do anterior presidentes franceses, Hollande e Sarkozy, juntos esta semana. As diferenças são engavetadas, mesmo que apenas temporariamente, em nome dum objetivo supostamente comum – no caso dos franceses, a “guerra ao terror”.

As imagens dos protestos na Alemanha contra a presença de imigrantes muçulmanos no país – que, confesso, me aterrorizaram, por se parecerem com protestos semelhantes aos do nascente movimento nazista no século XX – apontam para outra característica dessa polarização de nosso tempo: a estereotipagem do outro. A mesma característica, aliás, presente no Brasil durante as campanhas eleitorais, e mesmo depois. Grupos rivais que adotam um conjunto de opiniões exageradamente simplificadas sobre as supostas características de seus oponentes, presumindo que todos eles compartilhem um conjunto de características indesejáveis. É só escolher o grupo simplificado: a direita; a esquerda; os fundamentalistas; os ateus; os evangélicos; os muçulmanos; os judeus; os homossexuais; os heterossexuais; os negros; os brancos; os homens; as mulheres; os ricos; os pobres; os brasileiros; os norte-americanos – e lembrar-se dos adjetivos que frequentemente são associados a esses “grupos”.

Subjacente ao desenvolvimento daquelas ideias estereotipadas sobre o outro, além dos demais aspectos da polarização, encontra-se o fenômeno da percepção seletiva. Ou seja, tendemos a ver e ouvir aquilo que esperamos ver e ouvir, especialmente quando nossas emoções encontram-se à flor da pele. Baseados no que percebemos, frequentemente reagimos de formas antagônicas aos outros, e eles, como resposta, agem de formas tais que acabam por confirmar nossas expectativas. E quanto mais intensas as emoções, maiores são as probabilidades de isso ocorrer. Mais uma vez, é só pensar no que ocorreu no Brasil durante as últimas campanhas eleitorais e imediatamente após as eleições: a ameaça da “direita” no discurso de alguns, aparentemente confirmada, posteriormente, por marchas que pediam o retorno do regime militar!

Mas a tendência de grupos polarizados a desenvolverem ideias exageradamente simplificadas (estereótipos) não se limita apenas a ideias sobre seus oponentes, também inclui estereótipos sobre si próprios. Assim, aquilo que os oponentes apontam como características indesejáveis, muitas vezes, transformam-se em ideias e racionalizações simplificadas (ideologias) que justificam os próprios sentimentos ou comportamentos. E porque as ideias são exageradamente simplificadas e imprecisas, a ideologia unifica pessoas que, de outra forma, discordariam entre si. Presos às teias da polarização e suas emoções auxiliares, poucos se dão ao trabalho de comparar a ideologia à realidade.

Quando a polarização domina, o desenvolvimento do comportamento “defensivo” de cada grupo torna-se padrão. O processo toma forma num espiral de ação-reação, que pode até resultar, em casos extremos, em muitos “defensores” mortos. E, obviamente, o elemento crucial nesse processo não é “a verdade” sobre o outro ou sobre si, mas aquilo que se pense ser verdadeiro sobre o outro e sobre si mesmo.

O espiral da ação-reação e a percepção das ações do oponente como ofensivas não são, necessariamente, processos irracionais. Como cada grupo vê o outro como uma ameça real, e a polarização se intensifica, o próximo passo defensivo lógico se torna um “ataque preventivo”. Por exemplo, um exército que se concentre numa fronteira para evitar uma invasão se parece muito com um exército que se prepara para invadir!... Não muito diferente da forma como nossas sociedades têm se comportado interna e externamente – só temos de nos dar ao trabalho de observar.

...Tornamo-nos, infelizmente, escravos dos processos de polarização em nossas relações com “o outro”. A polarização tornou-se onipresente!

Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

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