sábado, 14 de março de 2015

A imaturidade democrática brasileira: piada esquizofrênica de mau gosto.


A imaturidade democrática na qual estamos mergulhados, no Brasil de 2015, é uma piada esquizofrênica de muito mau gosto. Essa sintomatologia social, que tem se exacerbado desde as campanhas eleitorais de 2014, só demonstra o longo caminho que ainda teremos de percorrer para desenvolvermos uma consciência assentada sobre os princípios da liberdade e da democracia.

Não votei na Presidente da República atual. Isso não é segredo. Observando a conjuntura sociopolítica, desde antes das últimas eleições, já imaginava que ela seria reeleita – apesar de eu haver desejado que não tivesse sido. Esse era o meu desejo individual. Ele não se realizou – como eu esperava. A maioria dos eleitores escolheram confiar em quem já governava. A dinastia do dia permaneceu no poder. Ponto final no que tange aos próximos quatro anos... Ao menos para mim era ponto final!

Durante o período eleitoral, me irritei e me diverti deveras com as idiotices que ouvi e li por aí. O exagero, o fanatismo, a ignorância, o preconceito, a intolerância, a indelicadeza, a insensatez, a imoralidade, tudo isso e muito mais, parecia ter infectado a voz de muitos que eu conhecia. Me surpreendi com o fato de pessoas aparentemente tão instruídas dizerem e escreverem tanta idiotice, baseada num fanatismo partidário cômico, que me envergonhei por seu comportamento. E isso, devo enfatizar, se aplicava a todos os lados das preferências partidárias daqueles que conhecia... Uma grande pena! Uma grande vergonha!

A vergonha alheia só aumentou quando outros defendiam uma intervenção militar ou o impedimento da Presidente da República, sem compreender o sentido institucional de sua descomunal idiotice partidária. Eles esqueceram que, numa sociedade livre e democrática, temos a obrigação moral e constitucional de honrar a escolha dos outros eleitores – pelo menos até que as instituições legais decidam que deve ser de outra forma.

Por isso não posso, em sã consciência democrática, me juntar àqueles que exigem o impedimento da Presidente. Com base em quê isso seria bem sucedido? Que evidências concretas há – não suposições baseadas na paixão partidária, mas evidências que possam sobreviver ao escrutínio legal – de seu envolvimento em atividades criminosas que possam justificar seu impedimento? E o que isso faria às instituições democráticas?

Que investiguem suas ligações com os acusados de corrupção. Que investiguem o financiamento de sua campanha. Que investiguem de forma ampla e aberta. Aí, então, se forem encontradas evidências suficientes que apontem crime, eu mesmo estarei na primeira fila daqueles que pedem seu impedimento. Sem evidências concretas, só estaria fazendo o que os fanáticos partidários dos que hoje ocupam os tronos dos palácios executivos fizeram durante todo o período no qual lá não estavam. Eram eles – os petistas – quem pediam o impedimento dos anteriores (como Fernando Collor de Melo que, posteriormente, tornar-se-ia aliado da administração petista; e Fernando Henrique Cardoso que fez um imenso esforço para construir a credibilidade política de Lula da Silva no cenário internacional, antes de sua posse).

Sou contrário a essa demanda pelo impedimento, assim como sou contrário à servitude política de sindicatos e outros grupos ao governo petista. Entretanto, apesar de ser contrário às suas demandas, como um liberal democrata, sou a favor da vociferação das mesmas. Como alguém que confia na democracia e na liberdade, acredito que não há risco ou ameaça em se declarar e demandar, desde que de forma legal. Logo, o sair às ruas exigindo um impedimento não é uma ação golpista: é, antes, a manifestação duma crença ou desejo que, mesmo equivocados, representam uma parcela da cidadania. O mesmo, obviamente, se aplica àqueles que saíram às ruas para apoiar o governo.

Os fanáticos, contudo, tentarão convencê-los que o “outro” – seja ela anti- ou pró- Rousseff – é golpista e antidemocrático apenas por dar voz a uma opinião contrária. Essa atitude de construção de inimigos e de divisão forçosa de classes partidárias, para mim, é o que é a maior ameaça à democracia.

Vejamos o que ocorrerá amanhã... Até lá, estou do lado da diversidade de opiniões e, principalmente, das instituições de Direito!

+Gibson

O Brasil de ontem e de hoje

Gibson da Costa Em 2013, incendiaram as ruas, em protestos contra a corrupção e o descaso. Em 2014, votaram absolut...