quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ainda sobre o pedido de “impedimento”: o espetáculo da manipulação semântica



Minha percepção – independentemente de minha parcialidade, característica essa que também marca aqueles que discordam de minhas opiniões – é que tornou-se quase impossível manter uma conversa moderada, equilibrada, racional, etc, com qualquer concidadão brasileiro nos últimos tempos acerca de quase qualquer tema; especialmente após as campanhas eleitorais de 2014 – e isso parece ser ainda mais verdade quando se trata dos meios das humanidades (se você for suficientemente atencioso/a e trabalhar em qualquer dos campos das ditas “ciências humanas” saberá do que estou falando).

No que concerne ao pedido de impedimento da Presidente – ao qual tenho sempre afirmado ser contrário, se se basear nos argumentos que foram levantados até agora –, o partidarismo extremado é explícito. Para os eleitores e apoiadores do Governo do dia, pedir impedimento é um “golpe”. E o termo é utilizado como um subterfúgio semântico para continuar a desvalidar qualquer um que pense de forma contrária à velha escola dos “salvadores da Pátria”. Assim, utilizando a tática da manipulação seletiva da memória social, os defensores do Governo utilizam o termo “golpistas” para descrever a todos aqueles que votam contrariamente ao PT. Ser um “golpista”, para esses, é sinônimo de ser “direitista”, e vice-versa.

Por outro lado, os apoiadores do movimento pró-impedimento aproveitam-se do extremismo infantilizado dos apoiadores do Governo, e do suporte partidarista dado pelos intelectuais acadêmicos (coincidentemente advindos dos campos das humanidades), para criarem uma resposta ridiculamente mentecapta que demoniza, mais uma vez, a todos aqueles de quem discordam. Para elas/es, há uma conspiração “esquerdista” no controle das instituições e dos meios de comunicação! A “esquerda” seria responsável pela “decadência” moral e política da “nação”! [Só esquecem que para haver uma “decadência”, a tal “nação” deveria ter estado em algum nível mais elevado, nos campos moral e político, em algum ponto do passado, e minha pergunta seria: quando foi isso?!]

Será que realmente precisaria apontar aqui o que há de comum entre as retóricas da “esquerda” e da “direita” brasileiras no que tange à sua relação com a diferença e diversidade de opiniões?... Creio que não é necessário. Em nossas guerras semânticas subjetivas e partidaristas, tornamo-nos especialistas em apontar nossos dedos aos nossos adversários. Dividimos artificialmente o mundo em duas esferas ideológicas que não refletem a realidade: as classificações de “esquerda” e “direita”, de “heróis” e “bandidos”, de “eles” e “nós”, etc, etc, etc.

Essa divisão artificial, que se tornou o único elemento real da retórica política de todos os partidos brasileiros, é o verdadeiro problema político do Brasil. Não há “crise política”, já que “crise” significaria que teria existido um momento harmônico anterior. O que há, em todos os grupos políticos nacionais, é plena falta de conteúdo relevante! Por isso o que domina é a política do “aponta dedos”, a política da manipulação semântica. Nada mais.

Assim, é muito fácil para os governistas falarem em “golpe” com o pesado sentido da década de 1960. Ninguém mais se lembra que os mesmos governistas que hoje acusam os pró-impedimento de “golpistas”, ontem pediam impedimento de todos os outros presidentes, de Sarney a Cardoso! Mas claro, à sua época o pedir impedimento era ser “democrático”!... Também não se pode falar em “golpe” quando o “golpista” maior é membro do mesmo grupo político – afinal, o Presidente da Câmara é membro do PMDB, partido do Vice-Presidente da República!... A isso chamo simplesmente de manipulação semântica: pode ressoar bem aos ouvidos dos eleitores e ativistas partidários, mas foge à racionalidade que abraço.

Também é fácil para os apoiadores do impedimento falarem em “moral” e “honestidade”, ao mesmo tempo em que se enterram na lama de argumentos sem sentido e anacrônicos. Sim, a Presidente da República aparentemente poderia ter sido acusada por crimes de responsabilidade no que tange ao seu mandato anterior – mas, aparentemente, não no que concerne ao atual. E por que não o fizeram antes? Por que utilizaram o impedimento apenas como uma aparente arma de vingança pela derrota eleitoral? E por que se associaram à imagem dum político moralmente falido? Por que demoraram tanto para se afastar de sua sombra?

Esquerda, direita, golpe, democracia, decadência, crise, homofobia, racismo, fundamentalismo... Esses termos e inúmeros outros se tornaram elementos do grande circo de manipulação semântica que a vida político-partidária do Brasil tem desenvolvido nos últimos tempos, como cópia barata do que ocorre especialmente ao norte do Rio Grande de outra América. É só isso!

Como se pode ver, se recorrermos à razão, veremos o quanto estaremos – inclusive você e eu – obscurecidos pela parcialidade de nossa semântica partidária. E esse é um dos elementos da confusão na qual nos encontramos!

+Gibson da Costa

O Brasil de ontem e de hoje

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