quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Manifesto opaco dum não-conformista apátrida


Gibson da Costa

As duas primeiras décadas do século XXI correm o risco de futuramente serem conhecidas, ao menos em algumas partes do mundo, como a “Era da Estupidez em Massa”. Sim, porque a tecnologia sobre a qual nosso dia a dia está atualmente assentado amplia, assustadoramente, o barulho da ignorância coletiva acerca da humanidade – aquilo que caracteriza-nos como seres pensantes.

Em nossos dias, os ignorantes e os doutos encontram canais relativamente livres e gratuitos para gritarem insanidades e se sujarem com a imoralidade apologética – política, religiosa, cultural ou qualquer que seja. Assim, torna-se mais fácil, para uma geração estúpida e irascível como a nossa, a massificação do não-saber voluntário, da apologética cartilhesca, da má vontade para com os demais, do preconceito pelo preconceito.

Se anteriormente se estampavam nas publicações impressas que se liam por preço ou empréstimo, hoje se encontram nos perfis virtuais de usuários semialfabetizados ou doutores. Se antes, para expor preleções intelectuais, o orador submetia-se à liturgia acadêmica ou profissional, hoje necessita apenas criar um canal em sítio de transmissões audiovisuais.

Democrático, é verdade. Mas também disseminador da estupidez, da ignorância e do preconceito.

Hoje, mais do que nunca, a violência, o preconceito, a intolerância, a insensatez e a desonestidade se revestem de roupagens intelectuais e se vendem facilmente como soluções finais para problemas semi-existentes. Mais do que nunca, ouvem-se vozes carregadas de crueldade, desonestidade e estupidez.

Mas essas vozes não são as únicas que falam. E, definitivamente, não devem ser as vozes às quais dar atenção.

Onde estão as vozes proclamadoras da paz e da concórdia? Onde estão as anunciadoras da boa vontade e da apreciação? Onde estão as vozes reconciliadoras e confortadoras? E onde estará o silêncio necessário para a reflexão – o freio que controla impulsos insanos para respostas irrefletidas?

Que vozes escolheremos ouvir nesta segunda metade da segunda década do século XXI? Escolheremos as vozes proclamadoras do ódio, do rancor, da discórdia? Escolheremos as falantes da linguagem ensurdecedora do mal? Ou ousaremos nos afirmar como humanos – como entes pensantes, racionais, culturais, espiritualizados? Mataremos o que o século XX não conseguiu extinguir por completo ou nos ergueremos contra a anti-humanidade?

A estupidez coletiva do século XXI, exposta nas rotas da selva eletrônica pelos profetas e filósofos do não-saber, é a não-humanidade quase-materializada. E ela deve ser rejeitada com todo o vigor de nosso espírito humano, e com toda a beleza de nossa capacidade racional.

Não à estupidez coletiva!


O Brasil de ontem e de hoje

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