sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Orientação emotivo-sexual: politizando o gênero e a sexualidade


Gibson da Costa

Ontem, numa entrevista sobre um novo trabalho com o qual estou envolvido, um jornalista se surpreendeu com a resposta que dei à sua pergunta:

Jornalista: “Mas, qual é sua orientação sexual?

Eu: “Sou humano. Isso me basta.

Ao longo de minha vida, tenho aprendido que essa afirmação de minha humanidade é muito mais importante do que as possíveis divisões que a ela possam ser impostas. Assim, as divisões nacionais, culturais, políticas, sociais, econômicas, de cor, ou quaisquer outras, não passam de constructos ideológicos, superficiais, e que, por isso mesmo, são irrelevantes para a visão que tenho de minha própria identidade. Mas mesmo a “humanidade”, essa identidade partilhada por todos os Homo sapiens, é – da forma como compreendida na modernidade –, um constructo ideológico, no qual se mesclam noções judaico-cristãs e filosóficas europeias, sintetizadas no ideário político (pós-)iluminista que deu luz à noção de “direitos humanos”. Hoje, é impossível falar politicamente em “humanidade” sem, mesmo que inconscientemente, dar voz a essas noções ideológicas a seu respeito. Há quinhentos anos, por exemplo, não havia a noção de “humanidade” como uma qualidade inata de todos os seres humanos que, como consequência dessa qualidade, teriam certos direitos inalienáveis – foi por essa razão que a instituição da escravidão, por exemplo, se tornou possível (a liberdade não era um direito inalienável de todos os homens, e, em alguns casos, a “humanidade” seria qualidade apenas de quem partilhasse da “civilização”).

Mas, novos tempos trouxeram novas questões identitárias. Assim, nos séculos XX e XXI, muitos se preocuparam/preocupam com questões referentes ao “gênero” e à chamada “orientação sexual”, por exemplo. Assim, depois de superada(?) a questão do que significa ser um “humano”, foram problematizadas as especificidades desse ser: importaria, agora, legitimar politicamente o “gênero” ou a “orientação sexual”, para que nossas diferenças pudessem ser, política e juridicamente, respeitadas. Para quem está sob a proteção duma vida conformada ao pensamento e práticas duma suposta maioria, por exemplo, ser “homem” ou “mulher” pode ser muito simples – é uma questão biológica, o que implicaria, como consequência, que “sexos opostos” se atraem. Mas, para pessoas que enfrentam desafios para viver sua humanidade de forma plena, “gênero” e “orientação sexual” dizem respeito a quem essas pessoas compreendem ser. Por essa razão, posso compreender e reconhecer-me em suas reivindicações políticas.

Entretanto, há limites para meu reconhecimento na politização do gênero e da sexualidade. Esse limite está, em meu caso, na insignificância dos detalhes referentes ao meu gênero ou à minha “orientação sexual” para a visão que abraço de minha humanidade. Sou homem e sou um ser sexual, mas esses detalhes são apenas partes de minha identidade humana. Minha humanidade não é definida por aqueles detalhes e pode não corresponder às concepções estereotípicas que outros possam ter sobre aqueles detalhes.

Tenho, há anos, dito que o termo “orientação sexual” é uma redução exagerada da forma como lidamos com a sexualidade. Em minha visão, até que provem o contrário, sexualidade e emotividade andam de mãos dadas. Explico-me: é claro que pessoas mantêm relações sexuais com outras com as quais não possuem ligações românticas – mas não é ao “romance” que me refiro quando utilizo o termo “emotividade” (ou “emoção”). Emotividade, aqui, refere-se a um aspecto bem mais subjetivo da humanidade: refere-se à consciência, à moralidade e, sim, ao afeto, dentre tantas outras coisas. Quando pessoas se sentem “atraídas” a outras, entram em jogo diferentes elementos da subjetividade humana que pouco têm a ver, diretamente, com o sexo. Chamar as experiências e emoções, incluindo o senso de “atração”, entre humanos de “orientação sexual” é uma negação da complexidade humana e um desfavor a qualquer esforço para sobrepujar discriminações contra outros seres humanos. Por isso, prefiro utilizar o termo – também limitado – “orientação emotivo-sexual”. As pessoas se orientam a outras por razões que vão além do físico; a subjetividade humana é o elemento-chave aqui.

Então, para responder à pergunta do jornalista do Herald:

Não sou heterossexual, não sou homossexual, não sou bissexual, não sou assexual. Sou um ser humano e, por isso mesmo, sou um ser emotivo e sexual. Se me sinto atraído a alguém, não estou muito preocupado com o sexo da pessoa. Estou preocupado com sua humanidade. Mulheres e homens possuem características físicas e psicológicas que podem torná-los boas companhias – em todos os aspectos. Mas mais do que essas características, o que realmente importa, para mim, é o indivíduo – é pelo indivíduo, afinal, que me sinto atraído.

Tenho interesse por pessoas e pela eticidade das relações humanas. Não tenho nenhum interesse em etiquetar meus sentimentos e relações humanas. Minha forma de politizar minha experiência no mundo – em termos de nacionalidade, cultura, sexualidade etc –, é simplesmente afirmar:

Sou humano. Isso me basta!


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