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"No princípio era o conflito..."

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Que utilidade pode ter uma formação nas humanidades para o “mercado de trabalho”?


Gibson da Costa

Ouvi, numa palestra sobre “os profissionais do futuro”, comentários acerca dos supostos tipos de profissionais desejados pelo “mercado”. Um dos palestrantes dizia que os jovens deveriam estudar algo “mais útil do que as ciências humanas”, se quisessem encontrar um emprego “decente”. Ele sugeriu que estudassem Administração de Empresas! [Talvez não soubesse, a propósito, que as chamadas “ciências sociais aplicadas”, como a Administração, são parte do grande grupo das humanidades!]

Não é interessante que o tipo de pergunta que serve de título para este texto, e que serve de fundo para os comentários que ouvi naquela palestra, seja sempre feito sobre as chamadas “ciências humanas”? [As aspas, a propósito, devem ser tomadas como um indicativo de minha discordância com o uso da expressão.]

Por que uma formação em Filosofia, História, Teologia ou Letras – só para citar alguns dos campos mais discriminados pelo tal “mercado de trabalho”, e algumas de minhas áreas de formação – não seria apropriada fora do mundo da educação ou da religião? Alguém com uma boa formação numa dessas áreas idealmente possui certas habilidades valiosas para qualquer empregador, dentre as quais:

  • saber pesquisar e analisar evidências;
  • conseguir perceber o que não está imediatamente aparente nos aparatos sociais;
  • compreender os processos de criação de conexões humanas;
  • articular uma argumentação persuasiva;
  • expressar ideias e soluções inovadoras;
  • possuir autonomia intelectual;
  • saber trabalhar sob pressão e dentro de um determinado prazo.

Como isso não seria útil a essa entidade quase etérea que chamam de “mercado de trabalho”? Que tipo de empregador não consideraria tais habilidades como essenciais ao seu negócio? Se os laboradores das humanidades que conhecem não correspondem a essa figura ideal listada acima, responsabilizem sua formação ou sua atitude, e não o campo que supostamente estudaram – caso contrário, começaremos a pensar que todos os que possuem formação nas áreas financeiras são plenamente ignorantes dos meandros da vida e conhecimentos humanos.