As teorias conspiratórias e a política



Gibson da Costa

Em 1826, um ex-maçom, chamado William Morgan, desapareceu no Estado de Nova York. Como, anteriormente, Morgan havia publicado um livro no qual revelava supostos segredos maçônicos, um grupo político nova-iorquino divulgou – sem nenhuma evidência – que ele havia sido assassinado pelos maçons. A histeria popular contra a Maçonaria se espalhou como fogo em palha seca por todos os Estados Unidos daquela época, especialmente em Nova York e em Estados vizinhos.

Muitas organizações antimaçônicas começaram a surgir nos Estados do nordeste americano para fazer oposição aos candidatos a cargos eletivos que eram, de conhecimento público, maçons. Foi assim que surgiu o primeiro movimento de extrema direita americano: o Partido Antimaçônico, fundado na cidade de Nova York em 1828. O conspiracionismo ganhava, ali, status institucional!

Para o Partido Antimaçônico, os maçons eram a grande ameaça. Para os membros do partido, os maçons representavam um inimigo poderoso, que havia tomado as instituições políticas, a educação, a economia, a imprensa e as igrejas cristãs. Assim, os antimaçons se viam como os defensores da “verdade” recém-descoberta. E sua missão seria salvar a América dessa ameaça. Apesar de terem sido o primeiro movimento relevante de extrema direita, nos E.U.A., não foram o único ou último grupo a se basear em “teorias de conspiração” – outros extremistas, à direita ou à esquerda do espectro político, fizeram o mesmo, com o atual Presidente Donald Trump sendo um dos mais bem-sucedidos porta-vozes dessa tradição conspiratória (afinal, ele chegou à Presidência!).

Mas o que é realmente interessante nessa história do Partido Antimaçônico, para mim, é a semelhança com o que ocorre hoje em dia, tanto nos E.U.A. quanto no Brasil. Um grupo descobre a “verdade” sobre supostos “inimigos”, e os destaca como a fonte de todos os problemas. Mesmo que não afirme isso em termos explícitos, esse grupo sugere que apenas se livrando desses inimigos seus seguidores seriam livres – e esse “livrar-se” materializa-se na utilização da retórica do medo e, consequentemente, na tentativa de manipulação emocional dos que ouvem ou leem, e, em casos mais extremos, em golpes políticos, assassinatos, violência física etc.

No Brasil atual, isso é muito claro nos comentários feitos pelos que falam/escrevem em favor dos movimentos da neodireita, cada vez mais radicalizados. Eles acusam a imprensa, os políticos, e principalmente os intelectuais e acadêmicos de serem parte duma conspiração marxista/socialista/comunista – geralmente utilizam os três termos como sinônimos. Em sua teoria conspiratória, há um plano para a destruição da dita família tradicional, da religião, da liberdade. E quem são as inspirações intelectuais desses ativistas?... Exatamente os mesmos autores e organizações que influenciam o extremismo nos E.U.A.!

E isso, para mim, é eticamente preocupante, mas intelectualmente interessantíssimo!


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