República dos Criminosos Denunciadores: Notas pessoais nº 1


Gibson da Costa

Porque chamei Michel Temer de “golpista”, alguns supuseram que eu quisesse dizer que Dilma Rousseff fosse “inocente”. Não, nunca escrevi ou disse isso.

Políticos não são inocentes. Sua “culpabilidade” é intrínseca ao seu trabalho. Eles ou elas sempre serão culpados por suas escolhas. Sempre!

Quando critico o processo de impedimento contra Dilma Rousseff me refiro às motivações e ao modus operandi, e não a uma suposta inocência da ex-Presidente. Minha crítica não é ao formato explícito do processo, mas, antes, ao que estava por trás dele – especialmente ao “golpe” dado pelo então Vice-Presidente (“golpe”, a propósito, é o único termo disponível no arcabouço teórico para o que ocorreu, independentemente de sua justiça ou injustiça).

Contudo, mesmo que a ex-Presidente não tenha cometido muitas das coisas que lhes foram atribuídas, ela ainda era culpada por suas escolhas – e, principalmente, por suas companhias.

Essa culpa intrínseca por escolhas e companhias, contudo, não era uma carta branca para que seus inimigos fizessem o que fizeram da forma como o fizeram. Especialmente o seu Vice, agora Presidente – e que vive o mesmo “drama”, apesar de vivê-lo com uma culpabilidade, talvez, muito mais clara e ultrajante (especialmente por vender-se e ser vendido como mais “digno” que a ex-Presidente).

O mesmo problema da culpa intrínseca recai sobre os ombros do atual Presidente da República dos Criminosos Denunciadores. Michel Temer é claramente culpado. Ele é culpado por suas escolhas e companhias.

Mesmo que não tenha cometido algumas das coisas que lhe atribuem, ao considerarmos sua posição presidencial e seu inquestionável domínio do conhecimento jurídico, ele é claramente culpado por associar-se às pessoas às quais se associou. Seu domínio dos meandros da linguagem dita “culta” – que muitos têm utilizado como razão para elogiá-lo com um ser superior aos dois últimos ocupantes do Planalto – não podem, agora, limpar sua já desgastada imagem. Ele, mais do que antes, é culpado por suas escolhas e companhias.

E, igualmente, o são Lula da Silva e Dilma Rousseff, assim como Fernando Henrique Cardoso, José Sarney ou qualquer outro que já tenha ocupado a função de Presidente da República. Nenhum deles é inocente por suas escolhas e companhias. O simples fato de terem recebido em seus gabinetes ou residências, enquanto Presidentes, a qualquer ator suspeito ou acusado de crime os torna culpados. Os Presidentes, afinal de contas, são alguns das pouquíssimos brasileiros que têm acesso a informações privilegiadas sobre qualquer outro cidadão brasileiro – assim, não podem se dar ao luxo de não saber se esta ou aquela pessoa com quem conversam ao telefone ou recebem em seus gabinetes ou residências é ou não investigada ou criminosa.

Obviamente, os políticos são reis da encenação. Lula da Silva, por exemplo, utilizou todo o espetáculo criado pelos Procuradores Federais e pela imprensa para vender-se como “vítima” e, assim, promover-se a candidato, uma vez mais, à Presidência da República. Só que ele – independentemente de algumas das acusações que lhes são feitas serem verídicas ou inverídicas – não é “inocente”. Suas escolhas, companhias e comportamento o tornam culpado.

Só tolos pensariam que ex-Presidentes, ou quaisquer outros políticos profissionais, não são “culpados”. Esses se esquecem que os Presidentes são os seres mais privilegiados do país: privilegiados pelo acesso à informação, às redes políticas nacionais e, frequentemente, internacionais, e pela proximidade ao poder econômico... Não, eles não são inocentes. São, na verdade, explicitamente culpados. Suas associações constituem-se no cerne de sua culpa.

Se são culpados dos crimes dos quais são acusados, não sei. E, na verdade, não faz muita diferença a esta altura. Para avaliar sua culpa, basta-me o antigo ditado: “Diga-me com quem andas, que te direi quem és!”

Nesse aspecto, político algum se salva!


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