terça-feira, 23 de maio de 2017

República dos Criminosos Denunciadores: Notas pessoais nº 2


Gibson da Costa

Aguentará o sistema político brasileiro outro processo de impedimento (impeachment) de Presidente no espaço de um ano? Provavelmente, não! Outro processo de impedimento, como afirmei sobre aquele que derrubou a ex-Presidente Dilma Rousseff, provavelmente terá efeitos devastadores não apenas para o sistema político brasileiro, mas também para a recuperação da economia. Processos desse tipo são sempre negativos para a vida institucional de qualquer Estado Democrático de Direito – e pior ainda para uma democracia tão jovem que ainda não conseguiu se assentar sobre os pilares da “res publica”.

Contudo, os cidadãos brasileiros – dentro ou fora do país – devem pensar seriamente no Estado que querem para o futuro. E devem agir para que esse Estado não continue a ser sequestrado pela imoralidade de grupos que se apropriam da “res publica” (a coisa pública) para proveitos próprios.

Chega de supostos heróis. Chega de supostos salvadores da pátria. Chega de supostos baluartes da esperança. Não são esses que “salvarão” o Estado brasileiro. A “salvação” não está nas mãos de políticos populares, de militares ufanistas, de movimentos corporativistas, de juízes personalistas ou de Procuradores em busca de espetáculos midiáticos. Não! Se há “salvação”, esta estará nos dedos dos eleitores – ou, talvez, na recusa à participação no sequestro da democracia.

O sistema político brasileiro provavelmente não aguentará outro processo de impedimento. Mas, a história moral do Estado não sobreviverá à permanência no poder daqueles que o sequestraram – mesmo que o sequestro tenha se dado através do voto, como consequência das mentiras que se tornaram a linguagem padrão da República brasileira.

A Constituição Federal mostra o caminho que a República brasileira deve seguir: o caminho preparado por seus autores. O problema é que, talvez, os constituintes não tenham pensado na imoralidade da democracia eleitoral nacional. Se, por exemplo, depuserem o Presidente que recebeu um investigado em sua residência oficial, de cuja boca ouviu confissões de crimes e não as levou às autoridades competentes – Presidente com sólido background jurídico (e que, por isso, sabia muito bem que estava ele mesmo cometendo um crime seríssimo), e que arquitetou um golpe político que só piorou a instabilidade institucional do Estado brasileiro –, quem o substituirá? Outros manchados pela mesma corrupção moral?

Se, por outro lado, a Constituição Federal for alterada só para que haja uma eleição direta após o suposto próximo impedimento presidencial, quem ganharia as eleições hoje? Outro investigado por corrupção que se promove às custas da divisão nacional? Ou um militar ufanista que causa repulsa ao senso ético dos amantes da democracia? Quem seria eleito Presidente, hoje?

Que futuro se reserva à República, agora? A República que segue os roteiros escritos para uma série projetada para entreter a escória da elite política – série que lança, diariamente, um novo episódio mais esdrúxulo do que o anterior. Série que divide a sociedade a favor de políticos populares, militares ufanistas, movimentos corporativistas, juízes personalistas ou Procuradores em busca de espetáculos midiáticos. Será essa a República que as novas gerações receberão?

É importante refletir sobre o problema, levando em consideração as consequências da escolha. Os arquitetos desse drama – capitalistas selvagens, ex-Presidentes, atual Presidente, líderes do Poder Legislativo, governadores, prefeitos etc – estão saboreando os privilégios do poder. O “povo” – os atores ao mesmo tempo mais frágeis e mais fortes (e, consequentemente, mais responsáveis pelo que ocorre) neste melodrama contemporâneo – paga os custos morais e econômicos pela série de TV que se tornou a política brasileira.

Até quando, afinal? Até quando?


O Brasil de ontem e de hoje

Gibson da Costa Em 2013, incendiaram as ruas, em protestos contra a corrupção e o descaso. Em 2014, votaram absolut...